O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizará nesta quinta-feira (19) em Washington a primeira reunião oficial do Conselho da Paz, órgão criado no mês passado para mediar conflitos internacionais. O encontro ocorrerá no Instituto da Paz dos EUA, recentemente rebatizado como "Donald J. Trump Institute of Peace" após mudanças administrativas em dezembro de 2024.
Nomeações polêmicas e estrutura do conselho
Trump nomeou figuras controversas para o conselho executivo, incluindo o ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair e o secretário de Estado americano Marco Rubio. A inclusão de Blair gera controvérsia devido ao seu papel na Guerra do Iraque em 2003, baseada em alegações falsas sobre armas de destruição em massa.
O Conselho da Paz foi proposto inicialmente em setembro de 2025 como parte de um plano de 20 pontos para encerrar o conflito entre Israel e Hamas, recebendo posteriormente endosso do Conselho de Segurança da ONU. No entanto, sua carta constitutiva não menciona explicitamente Gaza ou territórios palestinos, levantando preocupações sobre seu escopo ampliado.
Composição e controvérsias
Dos 60 países convidados pela Casa Branca, mais de 20 aceitaram participar, incluindo Israel, Catar, Arábia Saudita, Turquia e Egito. Notavelmente, principais aliados europeus como Reino Unido e França não aderiram, expressando preocupação com possível enfraquecimento da ONU.
O Brasil, representado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condicionou sua participação à inclusão de representantes palestinos. "É muito estranho que você tenha um Conselho e não tenha um palestino na direção", afirmou Lula em entrevista ao UOL em fevereiro, criticando anteriormente a proposta como tentativa de Trump de "ser dono da ONU".
Estrutura operacional e financiamento
O conselho possui dois órgãos executivos subordinados: o Conselho Executivo Fundador, focado em investimentos e diplomacia, e o Conselho Executivo de Gaza, responsável pela supervisão da reconstrução. Trump presidirá vitaliciamente o primeiro, com ampla autoridade decisória.
Membros permanentes devem pagar taxa de adesão de US$ 1 bilhão, destinada à reconstrução de Gaza. Trump anunciou que países já prometeram US$ 5 bilhões e comprometeram tropas para força internacional de estabilização, embora sem especificar quais nações.
Ausência palestina e reações internacionais
A exclusão de representantes palestinos de ambos os conselhos executivos é ponto central de críticas. Mustafa Barghouti, político palestino, descreveu o órgão como "basicamente um conselho americano" com representação limitada.
Enquanto isso, Israel expressou descontentamento com a composição, afirmando que "não foi coordenada com Israel e contraria sua política". A União Europeia participará como observadora, com a comissária Dubravka Suica representando o bloco.
Desafios da reconstrução de Gaza
A reconstrução do território pode custar mais de US$ 70 bilhões e levar anos, com 80% dos edifícios destruídos ou danificados. Jared Kushner, genro de Trump, apresentou plano que inclui arranha-céus e zona turística, estimando necessidade de US$ 25 bilhões em 2-3 anos.
Trump reiterou que o Hamas deve se desarmar completamente, condição rejeitada pelo grupo exceto como parte de acordo mais amplo por Estado palestino. Israel mantém que só se retirará com o desarmamento do Hamas.
Críticas e perspectivas futuras
Kaja Kallas, chefe da diplomacia europeia, descreveu o conselho como instrumento pessoal de Trump sem mecanismos de responsabilização. A iniciativa enfrenta questionamentos sobre legitimidade e potencial de minar instituições multilaterais estabelecidas.
Com reuniões iniciando em Washington, o Conselho da Paz se apresenta como alternativa controversa aos mecanismos tradicionais de resolução de conflitos, enquanto desafios humanitários em Gaza permanecem urgentes.



