A postura agressiva do presidente americano Donald Trump em relação à Venezuela, caracterizada por ameaças diretas e ações unilaterais, tem sido recebida com entusiasmo por setores da direita brasileira. Este posicionamento é visto como um contraponto claro à abordagem diplomática e multilateral defendida pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma afinidade discursiva com riscos estratégicos
Para analistas de relações internacionais, no entanto, essa celebração esconde um perigo político concreto. O professor Leonardo Paz, do Ibmec, destacou em análise para o programa Ponto de Vista que o histórico do mandatário dos Estados Unidos revela pouca lealdade a aliados circunstanciais. Apoiar Trump pode fazer sentido no campo retórico e eleitoral, pois sua linguagem agressiva dialoga com a base mais radicalizada e fortalece narrativas de confronto com governos de esquerda na região.
O problema, segundo Paz, surge quando essa sintonia no discurso se transforma em uma aposta estratégica de alto risco. “Ele abandona parceiros com facilidade quando seus interesses mudam”, afirmou o especialista, lembrando que figuras antes centrais na órbita de Trump foram rapidamente descartadas em episódios recentes.
O padrão Trump: decisões voláteis e interesses imediatos
O comportamento de Trump na crise venezuelana serve como um exemplo claro desse padrão. Suas ações são marcadas por decisões rápidas e desprezo por regras e organismos internacionais multilaterais. Um caso emblemático citado pelo professor foi o da líder opositora venezuelana María Corina Machado.
Apesar de ter sido um símbolo da resistência ao chavismo, ela acabou isolada no momento em que deixou de servir aos interesses imediatos da Casa Branca. Este episódio, analisa Paz, deveria servir como um alerta para políticos e influenciadores brasileiros que enxergam Trump como um aliado automático e confiável.
O perigo de um alinhamento excessivo
O risco, na avaliação do especialista, é bastante tangível. Um alinhamento excessivo e público com a agenda de Trump pode se tornar um grande problema para a própria direita brasileira se o presidente americano decidir, por mera conveniência, mudar sua posição em relação ao Brasil ou a atores locais.
“É uma política baseada em interesses, não em afinidades ideológicas”, ressaltou Leonardo Paz. Ele lembra que personalidades da direita nacional que hoje celebram abertamente as ações de Trump – como o deputado Eduardo Bolsonaro ou o influenciador Allan dos Santos – poderiam, da noite para o dia, se tornar alvo caso deixassem de ser úteis no jogo político americano.
A ofensiva de Trump, conclui o analista, acaba por reforçar a polarização interna no Brasil, ao criar um contraste explícito com a postura do governo Lula. No entanto, aplaudir ações externas sem uma avaliação cuidadosa das consequências de longo prazo pode legitimar práticas que, em um contexto futuro, podem ser viradas contra os próprios apoiadores. “Você gosta desse tipo de ação até o momento em que ela se volta contra você”, resumiu Paz, destacando a natureza volátil e imprevisível dessa aliança.