Rapper vira primeiro-ministro após protestos da Geração Z contra corrupção no Nepal
Rapper vira premiê após protestos da Geração Z no Nepal

Rapper conquista maioria parlamentar após protestos históricos no Nepal

O partido liderado por Balendra Shah, um rapper que se tornou político, conquistou a maioria no Parlamento do Nepal em eleições realizadas após os protestos da Geração Z que derrubaram o governo no ano passado. Os resultados foram anunciados nesta quinta-feira (12) pela comissão eleitoral do país asiático.

Vitória eleitoral expressiva

A votação em 5 de março elegeu uma nova Câmara de Representantes de 275 membros, a Câmara baixa do Parlamento nepales. Desse total, 165 assentos são escolhidos diretamente e 110 por um sistema de representação proporcional. Segundo a comissão eleitoral, o partido de centro RSP obteve 125 dos 165 assentos nas eleições diretas e outros 57 pela representação proporcional, somando 182 cadeiras.

A legenda ficou a apenas duas cadeiras da maioria de dois terços, demonstrando uma expressiva vitória eleitoral. A eleição foi a primeira desde os protestos juvenis contra a corrupção que sacudiram o país em setembro de 2025 e resultaram na queda do governo anterior.

Protestos que mudaram o país

As manifestações, associadas à chamada Geração Z, começaram após uma breve proibição das redes sociais pelo governo. Os atos rapidamente passaram a expressar um descontentamento mais amplo com a corrupção endêmica e com a economia fragilizada do Nepal.

O rapper Shah derrotou em seu distrito eleitoral o veterano KP Sharma Oli, de 74 anos, quatro vezes primeiro-ministro do país. A vitória marca a ascensão do atual prefeito da capital, Katmandu, que agora desponta como provável primeiro-ministro do Nepal.

Ostentação que gerou revolta

A onda de protestos que mergulhou o país no caos gerou imagens históricas na capital, Katmandu. Durante as manifestações em setembro, prédios governamentais e casas de ministros foram incendiados. Em cenas brutais, autoridades do governo foram arrastadas pela multidão e agredidas.

A desigualdade social é um dos principais pontos de descontentamento dos jovens nepaleses que levaram milhares de pessoas às ruas. Segundo o Banco Mundial, os 10% mais ricos ganham mais de três vezes a renda dos 40% mais pobres do país.

Dados alarmantes sobre a situação nepalesa:

  • Um em cada cinco nepaleses vive na pobreza
  • 22% dos jovens entre 15 e 24 anos estão desempregados
  • O Nepal está na lista da ONU de 44 países menos desenvolvidos do mundo

Campanha online expôs contrastes

Gaurav Nepune, um dos líderes dos protestos, explicou que os jovens vinham conduzindo uma campanha online havia três meses para expor o contraste entre a vida dos políticos e a das pessoas comuns. Usuários passaram a criticar a elite nepalesa publicando fotos de filhos de políticos ostentando luxo, enquanto jovens de famílias pobres precisam deixar o país para sustentar seus parentes.

Em meio a isso, escândalos de corrupção beneficiaram políticos. A impunidade alimentou ainda mais a revolta da população, criando um ambiente propício para mudanças políticas significativas.

Força da Geração Z

As manifestações foram fortemente organizadas por jovens da "Geração Z". Esse é o nome popular dado às pessoas nascidas entre 1995 e 2009, com algo entre 16 e 30 anos. É a primeira geração considerada nativa digital, já que cresceu em meio à internet, smartphones e redes sociais.

Por isso, esse grupo costuma ser descrito como mais conectado, crítico e engajado em debates sobre diversidade, sustentabilidade e política, além de ter hábitos de consumo e comunicação moldados pelo ambiente digital.

Instabilidade histórica

A agitação popular, que resultou no incêndio da sede do governo, do Parlamento e da Suprema Corte, foi a pior em décadas no país. O Nepal enfrenta instabilidade política e econômica desde a década de 1990, quando uma guerra civil que durou 10 anos resultou na abolição da monarquia nepalesa, em 2008.

Por ser muito recente, a democracia no Nepal ainda é considerada muito frágil. Ainda assim, segundo o Índice de Democracia de 2025, publicado pelo V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, na Suécia, o Nepal é classificado como uma democracia eleitoral — no mesmo patamar de Brasil, Argentina e Polônia.

A vitória de Balendra Shah representa uma virada significativa na política nepalesa, marcando a ascensão de uma nova geração ao poder após meses de protestos que expuseram as profundas desigualdades do país. O rapper-turned-politician agora enfrenta o desafio de governar uma nação com problemas estruturais graves e expectativas elevadas por parte da população jovem que o levou ao poder.