Radiotelescópio na Paraíba é citado em relatório dos EUA sobre espionagem chinesa
Radiotelescópio na PB é citado em relatório dos EUA sobre China

Radiotelescópio no Sertão da Paraíba é mencionado em relatório dos EUA sobre espionagem chinesa

O Laboratório Conjunto China-Brasil para Radioastronomia e Tecnologia, instalado na Serra do Urubu, no município de Aguiar, no Sertão da Paraíba, foi citado em um relatório de um comitê do Congresso dos Estados Unidos que investiga possíveis instrumentos de espionagem da China na América Latina. O documento, intitulado "Pulling Latin America Into China's Orbit" ("Atraindo a América Latina para a Órbita da China", em tradução livre), analisa instalações em vários países latino-americanos, incluindo Brasil, Argentina, Bolívia e Chile, vistas como suspeitas de terem uso duplo para inteligência militar.

Coordenação nega veementemente qualquer vínculo com atividades militares

Em entrevista exclusiva, o coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, negou categoricamente que o local seja uma base militar e reforçou o caráter estritamente científico da iniciativa. "Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar", afirmou Abdalla. Ele destacou que a participação chinesa no projeto se limita a três pesquisadores de universidades do país asiático que fazem parte da cúpula de comando, com o governo chinês atuando apenas como apoio tecnológico.

Detalhes do projeto BINGO e sua missão científica

O laboratório instalado no Sertão da Paraíba integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), dedicado à pesquisa em radioastronomia. A iniciativa busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência para investigar a matéria e a energia escura do universo. O projeto reúne instituições brasileiras e chinesas, como o CESTNCRI, a UFCG, a UFPB e o Governo da Paraíba, com um investimento direto estimado em R$ 20 milhões.

Quanto aos equipamentos, várias peças do radiotelescópio foram enviadas da China, incluindo os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, componentes centrais da estrutura. O corpo principal do radiotelescópio BINGO foi transportado do Porto de Tianjin, na China, para o Porto de Suape, em Pernambuco, chegando em junho de 2025 após quase dois meses de viagem. As estruturas foram testadas e certificadas antes do embarque.

Tecnologia com potencial para aplicações nacionais

Élcio Abdalla explicou que uma das tecnologias do radiotelescópio, chamada Phased array (conjunto de antenas em fase), pode ter aplicações além da pesquisa científica, como no mapeamento de florestas brasileiras e em sistemas de segurança. "Tecnicamente isso pode ser usado para outras coisas e, de fato, nós queremos usar como radares, por exemplo, não para vender para ninguém. Os chineses sabem fazer isso, eles não precisam de nós", disse o coordenador.

Ele detalhou que essa tecnologia poderia ser empregada para monitorar a Amazônia e combater atividades ilegais, com pequenos radares instalados em embarcações ou aviões. "Podemos guardar toda a Amazônia e toda a atividade ilegal, uma centena desses pequenos radares, se nós conseguirmos reproduzi-los de modo apropriado", afirmou Abdalla, ressaltando que tais aplicações não têm caráter de espionagem ou uso militar, mas sim de proteção ambiental e soberania nacional.

Contexto internacional e outras instalações mencionadas

O relatório americano foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos, presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan e membro do Partido Republicano. Além do laboratório na Paraíba, o documento cita a Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, apontada como uma base militar chinesa não-oficial para lançamentos especiais, desenvolvida em parceria com a empresa aeroespacial chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd.

Prazos de operação e colaboração científica de longa data

Quanto aos prazos, Élcio Abdalla informou que o telescópio deve começar a operar em 2026, com funcionamento pleno previsto para 2027. Inicialmente, a previsão era de início em 2021, mas a pandemia atrasou os planos. O coordenador enfatizou a longa colaboração científica com os pesquisadores chineses, que dura cerca de três décadas, e negou qualquer influência estrangeira no projeto. "Se houver alguma influência, é uma influência brasileira", concluiu.