Panamá detém e deporta ex-ministro Franklin Martins em escala para Guatemala
Panamá detém e deporta ex-ministro Franklin Martins

Ex-ministro brasileiro é detido e deportado pelo Panamá durante conexão aérea

O governo do Panamá retém e posteriormente deporta para o Brasil, na última sexta-feira (6), o jornalista e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social Franklin Martins. O incidente ocorreu quando ele fazia uma escala com destino à Cidade da Guatemala, onde participaria de um seminário internacional sobre reconstrução de estados de bem-estar social nas Américas.

Detenção e interrogatório no aeroporto

Agentes panamenhos abordaram Franklin Martins ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Tocumen, na Cidade do Panamá. Dois policiais à paisana examinaram seu passaporte e o conduziram imediatamente para uma sala de interrogatório sem identificação. "Perguntei o motivo e responderam apenas que precisavam fazer uma entrevista", relatou o ex-ministro ao Itamaraty.

No local, os agentes solicitaram que preenchesse um documento com dados pessoais, incluindo informações sobre eventuais prisões anteriores. O interrogatório concentrou-se especialmente em sua detenção em 1968, durante o Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, São Paulo. Franklin respondeu que havia sido preso por motivos políticos durante a ditadura militar brasileira, enfatizando que lutar contra o regime autoritário constituía um dever democrático, não um crime.

Justificativa baseada em lei migratória

Os policiais citaram a Lei de Migração panamenha de 2008 como fundamento para a retenção. A legislação proíbe conexões via Panamá a passageiros que tenham cometido crimes graves, incluindo sequestros. Franklin Martins integrou grupo guerrilheiro que participou do sequestro do embaixador americano no Brasil, Charles Burke Elbrick, em 1969, ação que resultou na troca por presos políticos da ditadura.

"Mais uma vez afirmei que não havia cometido crime algum, mas lutado contra uma ditadura. E me orgulhava disso", declarou o ex-ministro em seu relato. Ele solicitou contato com a Embaixada do Brasil, mas os agentes negaram, alegando tratar-se de decisão soberana das autoridades panamenhas.

Procedimentos de identificação e confinamento

Durante o processo, Franklin foi fotografado de frente e de perfil, além de ter suas impressões digitais coletadas múltiplas vezes. Após o interrogatório inicial, foi transferido para uma sala da Migración de Panamá, onde permaneceu confinado por aproximadamente quatro horas. Funcionários deste setor demonstraram maior sociabilidade, permitindo que usasse o banheiro, comprasse um hambúrguer e recarregasse seu celular.

Por volta das 14h, foi colocado em um voo da Copa Airlines com destino ao Rio de Janeiro. Seu passaporte foi entregue à tripulação com instruções para devolução apenas no Brasil. Ao desembarcar no Galeão, recebeu o documento de volta através de funcionária da companhia aérea.

Reação diplomática e pedido de desculpas

O governo brasileiro solicitou explicações formais à chancelaria panamenha. Em resposta, o ministro das Relações Exteriores do Panamá, Javier Eduardo Martínez-Acha Vásquez, enviou mensagem ao chanceler brasileiro Mauro Vieira no domingo (8), apresentando pedido formal de desculpas.

"Permita-me expressar, em nome do Governo Nacional do Panamá, nossas sinceras desculpas pelo inconveniente causado por esta situação", escreveu o chanceler panamenho. A nota acrescenta que Franklin Martins "será sempre bem-vindo ao Panamá" e que as autoridades terão prazer em recebê-lo em data conveniente, demonstrando respeito por sua carreira pessoal e profissional.

Contexto histórico e cooperação internacional

Franklin Martins atribui o incidente à intensa colaboração entre os governos panamenho e americano em matéria de segurança. Em 2025, os dois países assinaram acordos abrangentes nessa área. O ex-ministro acredita que sua retenção resultou do cruzamento de informações entre bases de dados panamenhas e norte-americanas, não constituindo perseguição pessoal, mas possível procedimento padrão.

O caso levanta questões sobre como países tratam históricos de ativismo político contra ditaduras. Franklin questiona se brasileiros que lutaram contra o regime militar e foram condenados por tribunais da época devem ser alertados sobre possíveis restrições ao visitar o Panamá ou fazer conexões aéreas.

O relato completo do ex-ministro ao Itamaraty detalha cada etapa do episódio, desde a abordagem inicial até a deportação, enquanto a resposta panamenha enfatiza o caráter administrativo da decisão e reafirma as excelentes relações diplomáticas entre Brasil e Panamá.