Se há algo que a história das relações econômicas e internacionais do último século ensina é que o mundo não fica parado e não está sob controle de ninguém. O século XX começou relativamente aberto ao comércio internacional, herdeiro da primeira globalização do século XIX. Não era um mundo perfeito, mas havia fluxos relevantes de bens, capitais e pessoas. Esse arranjo foi interrompido pelas duas grandes guerras. A Primeira Guerra Mundial desorganizou cadeias produtivas e fluxos comerciais; a Segunda foi além, redesenhando não apenas fronteiras, mas o próprio arcabouço institucional da economia global.
O “trauma” foi tamanho que, no pós-guerra, houve um esforço deliberado de coordenação internacional. A ideia era evitar a repetição dos erros da década de 1930, quando protecionismo e colapso econômico caminharam lado a lado com a escalada política que culminaria no conflito global. É nesse contexto que surgem o Gatt (Acordo Geral de Tarifas e Comércio) e, posteriormente, a Organização Mundial do Comércio (OMC). A lógica era quase intuitiva: economias integradas geram prosperidade, e prosperidade reduz incentivos ao conflito.
Por um tempo, esse mundo com diversos órgãos supranacionais “harmônicos” – e que tentavam garantir o máximo possível de uma harmonia global – parece ter funcionado bem para boa parte dos países. Ao longo da segunda metade do século XX, e especialmente após o fim da Guerra Fria, o mundo passou por um processo intenso de integração. Empresas deixaram de operar dentro de fronteiras nacionais rígidas e passaram a organizar sua produção em múltiplos países. Cadeias globais de valor se consolidaram. E, talvez o ponto mais visível, consumidores passaram a acessar uma variedade de bens que simplesmente não existia poucas décadas antes.
A interdependência como base do padrão de vida moderno
Esse mundo integrado é a realidade material do padrão de vida contemporâneo. A intuição econômica por trás disso é antiga: David Ricardo já explicava, no século XVIII, que países não precisam produzir tudo o que consomem. Ao se especializarem naquilo em que são relativamente mais eficientes e trocarem entre si, conseguem consumir muito mais do que seriam capazes em isolamento. É um daqueles raros casos em que a teoria econômica é não apenas correta, mas profundamente visível no cotidiano.
Os exemplos estão por toda parte. Os Estados Unidos, frequentemente vistos como sinônimo de autossuficiência, dependem intensamente do comércio internacional: de semicondutores asiáticos a insumos industriais e bens de consumo, de frutas tropicais a roupas de cama. A China, por sua vez, é talvez o caso mais emblemático de todos. Tornou-se a grande fábrica do mundo, mas também depende dele para muito mais do que exportar. Sua classe média e alta consome (e aspira consumir cada vez mais) produtos estrangeiros como símbolo de status: bolsas Louis Vuitton, BMWs e Porsches alemães, perfumes Chanel, cafés Starbucks e Nespresso. Ou seja, mesmo as maiores economias do planeta não são nem querem ser autárquicas.
O Brasil, apesar de sua tradição mais fechada, também está profundamente inserido nessa lógica. Basta olhar com um mínimo de atenção para o cotidiano. Fertilizantes, essenciais para a nossa agricultura, vêm majoritariamente do exterior. Eletrônicos amplamente consumidos, inclusive por camadas populares, são importados (quem nunca viu a rotina quase industrial das entregas da Shopee nos condomínios?). Em contrapartida, exportamos de tudo: soja, minério, carne, café, cacau, jatinhos, e até pés de frango, altamente demandados no mercado asiático.
Essa rede de interdependência não é acessória. Ela sustenta concretamente o padrão de vida de bilhões de pessoas. E os poucos países que optaram por se afastar dela (normalmente por decisões autocráticas) oferecem um contraponto eloquente: estão sistematicamente entre os piores indicadores de renda, desenvolvimento humano e até mesmo saúde.
Os riscos geopolíticos e o impacto no cotidiano
É por isso que os eventos recentes no Oriente Médio não podem ser tratados apenas como um conflito distante, quase regional – eles já afetam, e talvez afetarão ainda mais, a realidade e o dia a dia de pessoas “comuns”. Quando os noticiários apontam riscos iminentes ao Estreito de Ormuz, ao Bab el-Mandeb ou ao Canal de Suez, o que está em discussão não é apenas geopolítica abstrata. Estamos falando de algumas das principais artérias do comércio global, especialmente de energia, mas que é o motor de boa parte das atividades econômicas de praticamente todos os países do mundo.
O fechamento ou a mera instabilidade nessas rotas tem potencial para desorganizar cadeias produtivas inteiras, elevar custos de forma abrupta e gerar efeitos que se propagam rapidamente por todo o sistema econômico global. Em um mundo integrado, não existe mais apenas choques locais. Claro que regiões altamente populosas e dependentes de importações (por exemplo, boa parte da Ásia) podem enfrentar pressões severas, inclusive sobre segurança alimentar. Mas os efeitos reverberam em preços, contratos, decisões de investimento, cadeias logísticas de absolutamente todo o planeta.
O Brasil não estaria de fora. O impacto mais imediato, por aqui, costuma sempre aparecer via inflação, especialmente por meio do petróleo. Mas isso é só o começo. O risco relevante é mais difuso: é a desorganização de uma rede da qual dependemos, muitas vezes sem sequer perceber. Infelizmente, o Brasil já testou, em alguma medida, a ideia de fechamento – não por completo, mas o suficiente para gerar distorções relevantes. O período de substituição de importações produziu carros tecnologicamente atrasados, uma indústria de informática isolada e menor acesso à inovação e bens de qualidade. O custo não foi imediatamente visível, mas foi real e certamente afetou significativamente o bem-estar da população brasileira.
A ideia de que poderíamos nos fechar hoje, em um mundo muito mais integrado, sem custos significativos é totalmente ilusória. Nós sofreríamos impactos, e muitos.
Os limites do controle e a necessidade de prudência
Por outro lado, há uma tentação recorrente, tanto na política quanto na academia, de acreditar que é possível “organizar” o mundo. Que relações internacionais seguem padrões previsíveis, que conflitos podem ser antecipados, que decisões estratégicas são fruto de cálculos racionais estáveis. A realidade, no entanto, desmente esse tipo de otimismo e de uma certa prepotência humana. A história está repleta de eventos que mudaram o rumo da humanidade a partir de contingências quase triviais. Um atentado em Sarajevo. Um erro de cálculo diplomático. Uma decisão tomada sob pressão. Até fatores aparentemente externos, como condições climáticas, já influenciaram batalhas e seus desfechos.
Há, portanto, um limite importante para qualquer pretensão de controle, mesmo para os países mais poderosos, econômica e/ou militarmente. O mundo em que vivemos hoje, altamente interdependente, é também um mundo mais sensível a choques. Pequenas rupturas podem ter efeitos desproporcionais. E, talvez por isso mesmo, é um mundo mais difícil de “conduzir” do que muitos gostariam de admitir.
Se há uma lição a extrair desse cenário, ela é menos sobre previsões e mais sobre prudência. Menos sobre controle e mais sobre reconhecimento de limites. E, sobretudo, sobre a importância de preservar, com algum grau de lucidez, os mecanismos que permitem que esse sistema continue funcionando.
Luciana Yeung é Professora Associada e Coordenadora do Núcleo de Análise Econômica do Direito do Insper. Membro-fundadora e ex-presidente da Associação Brasileira de Direito e Economia (ABDE), Diretora da Associação Latino-americana de Direito e Economia (ALACDE). Pesquisadora-visitante no Law and Economics Foundation na Universidade de St Gällen (Suíça) e no Institute of Law and Economics, da Universidade de Hamburgo (Alemanha). Autora de “O Judiciário Brasileiro – uma análise empírica e econômica”, “Curso de Análise Econômica do Direito” (juntamente com Bradson Camelo) e “Análise Econômica do Direito: Temas Contemporâneos” (coord.), além de dezenas de outras publicações, todos na área do Direito & Economia.



