Governo Milei lança documentário revisionista no 50º aniversário do golpe argentino
Na data que marca cinco décadas do golpe militar de 1976 na Argentina, enquanto milhares marchavam para lembrar os horrores da ditadura, o governo de Javier Milei lançou nesta terça-feira, 24 de março de 2026, um documentário polêmico intitulado "As Vítimas que Queriam Esconder". A produção de uma hora e quinze minutos defende uma "memória completa" do período ditatorial, misturando relatos de vítimas dos militares com as de grupos guerrilheiros da época.
Revisão histórica e equiparação controversa
A Casa Rosada, sede do governo argentino, vem sustentando que os anos de chumbo constituíram uma guerra onde excessos foram cometidos por ambos os lados. O documentário apresenta essa visão, equiparando o Estado militar aos grupos que o combatiam e criticando o que chama de "visão enviesada e revanchista" da história. Segundo o governo Milei, esta perspectiva teria sido usada como "instrumento de manipulação" pela esquerda argentina.
Desde que assumiu o poder em 2023, a administração Milei argumenta que muitas vítimas de ações estatais e de grupos guerrilheiros não foram reconhecidas porque suas histórias não se encaixavam na narrativa oficial dos governos peronistas, especialmente dos Kirchner. A Casa Rosada afirma que a esquerda distorceu a história do período, considerando apenas crimes de Estado enquanto ignorava a violência dos grupos guerrilheiros.
Depoimentos e narrativas selecionadas
O documentário inclui testemunhos como o de Miriam Fernández, uma neta recuperada que compartilha a descoberta de suas raízes mas afirma não se considerar vítima, destacando uma infância feliz com a família que a acolheu. Também aparece o depoimento do filho de um ex-oficial militar sequestrado em 1974 pelo Exército Revolucionário Popular (ERP), uma das organizações guerrilheiras ativas na década de 1970.
O vídeo defende que as novas gerações precisam entender esses eventos "sem ideologias ou censura", promovendo uma reinterpretação do período ditatorial que tem gerado intenso debate na sociedade argentina.
Protestos massivos reafirmam "Nunca Mais"
Antes mesmo da divulgação oficial, o documentário já havia gerado reações. Nesta tarde, a Praça de Maio em Buenos Aires começou a encher com manifestantes carregando cartazes com os dizeres "Não nos venceram" e balões brancos subindo ao céu com fotos dos desaparecidos e a legenda "Ainda estamos te procurando".
Sob o lema "Nunca Mais", que marcou gerações, grupos de direitos humanos, sindicatos e organizações sociais se reuniram em Buenos Aires e em todo o país com fotos dos desaparecidos. As estimativas divergem: organismos de direitos humanos falam em 30 mil vítimas, enquanto o governo Milei menciona apenas 9 mil.
As Mães e Avós da Praça de Maio lideraram a marcha em Buenos Aires, dando continuidade à tradição iniciada durante a própria ditadura, quando começaram a se reunir para exigir informações sobre o paradeiro de filhos e netos.
Legado da ditadura e números que persistem
O golpe cívico-militar de 1976 derrubou Isabel Perón e instaurou uma ditadura que governou até 1983, período marcado por:
- Desaparecimentos forçados
- Torturas sistemáticas
- Sequestro de bebês
- Exílio forçado de milhares
Cinquenta anos depois, 1.208 pessoas foram condenadas em mais de 350 julgamentos, mas mais de 300 casos permanecem em aberto. As Avós da Praça de Maio já restituíram a identidade de 140 netos sequestrados ainda bebês ou que nasceram em cativeiro, estimando-se que mais de 300 ainda precisam ser encontrados.
Análise política e opinião pública
Para o cientista político Iván Schuliaquer, da Universidade Nacional de San Martín, o revisionismo de Milei revela que "algo do pacto democrático se quebrou com este governo". No entanto, ele ressalta que "a condenação à ditadura, ao plano sistemático de perseguição, tortura e desaparecimento ainda se mantém forte na maior parte da população argentina".
Um estudo recente da Universidade de Buenos Aires (UBA) e do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS) com 1.136 entrevistados em todo o país revelou que sete em cada dez argentinos condenam a ditadura militar, indicando que a posição revisionista do governo não reflete o sentimento majoritário da população.
O aniversário de 50 anos do golpe tornou-se assim um palco de disputa memorialística, onde o governo busca reescrever a história enquanto a sociedade civil marcha para preservar a memória das vítimas e o compromisso democrático do "Nunca Mais".



