José Antonio Kast assume presidência do Chile em virada radical à direita pós-Pinochet
O ultraconservador José Antonio Kast tomou posse como presidente do Chile nesta quarta-feira, 11 de março de 2026, marcando a virada mais radical à direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Sua ascensão ao poder consolida o avanço de líderes direitistas na América Latina, que agora governam cinco dos doze países da região, com possibilidade de expansão após eleições na Colômbia e no Brasil ainda este ano.
Linha-dura contra crime e imigração
Kast, um advogado chileno de 60 anos, chegou ao cargo prometendo um "governo de emergência" focado em combater o crime e a imigração irregular, as principais preocupações da população. Embora o Chile mantenha uma das taxas de homicídio mais baixas da América Latina, com 5,4 por 100 mil habitantes em 2025, o novo presidente retratou o país como um "Estado falido dominado por narcotraficantes" durante sua campanha.
Para efeito de comparação, o Brasil registra um índice quase quatro vezes maior, com 21,2 homicídios por 100 mil habitantes, segundo dados do Atlas da Violência. Apesar disso, Kast fez discursos atrás de vidros à prova de balas, enfatizando uma postura linha-dura que ressoou com eleitores cansados da insegurança percebida.
Consolidação da direita na América Latina
A posse de Kast ocorreu no Congresso em Valparaíso, com a presença de outros líderes direitistas da região, como Javier Milei da Argentina, Rodrigo Paz da Bolívia e Daniel Noboa do Equador. O evento também contou com representantes dos Estados Unidos, incluindo o subsecretário de Estado Christopher Landau, e a venezuelana Nobel da Paz María Corina Machado.
Notavelmente, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva cancelou sua participação no último minuto, sendo representado pelo chanceler Mauro Vieira. Analistas políticos destacam que Kast se junta a um crescente número de governos aliados dos EUA na América Latina, reforçando uma tendência geopolítica significativa.
Espectro de Pinochet e controvérsias
Dois dos futuros ministros de Kast foram advogados de Augusto Pinochet, cuja ditadura deixou milhares de mortos, desaparecidos e torturados. O próprio presidente já declarou que, se o autocrata estivesse vivo, teria votado nele. Além disso, investigações jornalísticas revelaram em 2021 que o pai de Kast era membro do Partido Nazista, embora o advogado alegue que isso se deveu ao recrutamento forçado durante a Segunda Guerra Mundial.
Kast nomeou uma ativista antiaborto como ministra dos Assuntos da Mulher, formando uma equipe que especialistas consideram "com pouca experiência em negociação política". Isso pode gerar tensões com o Congresso, especialmente em um país com tradição de transições cordiais de poder, que foi rompida recentemente quando Kast acusou o governo anterior de ocultar informações sobre um projeto de cabo submarino com a China.
Desafios e promessas não detalhadas
Durante a campanha, Kast evitou detalhar como cumpriria promessas polêmicas, como cortar gastos públicos em US$ 6 bilhões sem eliminar benefícios sociais ou deportar mais de 330 mil imigrantes irregulares. Sua rejeição categórica ao aborto e admiração por Pinochet também foram temas que ele esquivou em debates, focando instead em sua agenda de segurança e costumes ultraconservadores.
Com sua posse, o Chile entra em uma nova era política, onde a direita conservadora assume o poder de forma inédita desde o retorno à democracia, prometendo transformações profundas que podem redefinir o cenário regional.
