Série especial do JN chega a Pequim e explora a história política da China
A viagem especial do Jornal Nacional pela China chegou nesta quarta-feira (29) à capital Pequim, terceira cidade da série. É lá que se pode subir na Grande Muralha da China, que tem 20 mil km de extensão e foi construída ao longo de 2 mil anos, atravessando dinastias que se enfrentaram e desapareceram. Até hoje, ela representa uma ideia que perpassa a história: a de que um país tão grande precisaria de um poder central para organizar tanta gente. Essa ideia não terminou com os imperadores. Desde 1949, ela tem outro nome: Mao Tsé-Tung.
“Para entender a China que hoje expande sua influência pelo mundo – inclusive o Brasil –, que desafia os Estados Unidos, a China do atual presidente, Xi Jinping, a gente tem que voltar a esse nome. E é o que a gente vai fazer a partir de agora”, afirma o correspondente Felipe Santana.
O poder absoluto de Xi Jinping e o legado de Mao Tsé-Tung
Quem será hoje o homem mais poderoso do planeta? O presidente americano, com o poder do dólar e o Exército mais forte do mundo? Ou o presidente chinês, Xi Jinping, que conseguiu, por meio de cautelosa estratégia política, conquistar o poder absoluto? Ele é o líder mais forte da China desde 1º de outubro de 1949, quando o Partido Comunista chegou ao poder. O Estado tomou controle da terra, fábricas e empresas em nome do povo. O grande arquiteto do sistema, até hoje grande ícone do partido, foi Mao Tsé-Tung.
Foram impressas mais de 1 bilhão de cópias de seu pequeno livro de citações, que prega que a ideia de progresso individual às custas dos outros não é aceitável. Seu governo foi marcado por duas campanhas conhecidas mundialmente. A primeira, o Grande Salto Adiante, em 1958, uma campanha de mobilização popular para que a China deixasse de ser um país agrícola e se transformasse em potência industrial. Até cidadãos comuns foram encorajados a produzir aço no quintal. No campo, para garantir a produção de comida para a população, as fazendas foram reorganizadas em grandes comunas. Mas muitos governos locais diziam que estavam produzindo mais do que realmente estavam e, com muita gente indo trabalhar na indústria, o país sofreu o que é considerada uma das maiores crises de fome do século 20. Estudos demográficos chineses estimam 15 milhões de mortes; historiadores ocidentais falam em 40 milhões.
Depois disso, alguns camponeses voltaram a ter controle direto sobre as comunidades agrícolas, e algumas lideranças apostaram na reconstrução da economia rural e passaram a defender menos mobilização ideológica constante. Isso incomodou Mao. Veio então outra campanha histórica, a Revolução Cultural, que mirou integrantes do próprio partido – vistos por Mao como traidores que se afastaram do comunismo. Milhões de jovens foram recrutados como os Guardas Vermelhos para verificar a ideologia até de seus professores. O expurgo varreu escolas, universidades e os braços locais do governo.
Em 1976, morreu Mao Tsé-Tung e acabou a Revolução Cultural. Em seu lugar assumiu Deng Xiaoping, que depois classificou a Revolução Cultural como um erro. Deng Xiaoping assumiu como um reformista, de acordo com o historiador Andrew Meyer, do Brooklyn College, em Nova York: “Ele viu que os parâmetros rígidos da economia planejada estavam inibindo a China de alcançar seu potencial e concluiu que era preciso introduzir forças empresariais que gerassem riqueza. Ele quis fazer isso de forma controlada”, diz.
Transformação econômica e ascensão global
Foi aí que foi criada a Zona Especial Econômica de Shenzhen. Era uma vila de pescadores que hoje é o Vale do Silício da China. Mas não parou por aí. Em várias partes do país, a iniciativa privada se expandiu. Começava a transformação da China em potência econômica global, mantendo o controle do Partido Comunista. Em 1993, assumiu Jiang Zemin, que colocou os chineses na Organização Mundial do Comércio, e a China passou a ter que se adaptar a regras globais de produção e exportação. Em 2003, Hu Jintao inaugurou uma era de crescimento acelerado. Em dez anos, o produto interno bruto quadriplicou, e a China se tornou a segunda maior economia do mundo.
Depois vieram os Jogos Olímpicos de 2008. A cerimônia de abertura, histórica, apresentou a nova China para o mundo: da história milenar aos avanços tecnológicos. Em 2013, chegou Xi Jinping. Seu mandato é marcado por centralização do poder do Estado em época de turbulência internacional. Ele comanda um partido que tem mais de 100 milhões de membros – o maior do mundo. Esses integrantes estão espalhados por todos os setores da sociedade: em todos os níveis de governo, nas Forças Armadas, nas universidades e escolas, nas empresas estatais e privadas, e cada vez mais no setor de tecnologia. Os membros do partido ajudam a executar a visão de quem está no topo.
Mas nos últimos anos, chegar perto do topo ficou mais difícil. Sob Xi Jinping, o espaço para discordar dentro do partido encolheu e ele conseguiu eliminar o limite de dois mandatos como presidente, podendo agora liderar o país até morrer. Esse é o momento de poder mais centralizado da história da República Popular da China desde Mao Tsé-Tung. Hoje, o rosto de Xi está em todos os lugares. Pensamentos dele foram inseridos na Constituição. Tem até aplicativo, que para alguns é obrigatório baixar, para estudar as ideias do presidente chinês. Xi Jinping, hoje, intervém nas empresas quando alguma acumula muito poder; demite o alto escalão do Exército; regula o acesso à internet; controla cada vez mais a imprensa e a liberdade de expressão. Xi quer provar como legado uma antiga máxima, perigosa: de que a humanidade governa melhor quando governa junto, mas que decide melhor quando decide sozinha.
Nesta quinta-feira (30), o Jornal Nacional viaja para Cantão. A cidade é um dos polos da produção de carros elétricos na China.



