Premiê do Japão dissolve Parlamento e convoca eleições para 8 de fevereiro
Japão: primeira-ministra dissolve Parlamento e convoca eleições

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, tomou uma decisão drástica nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026. Após apenas três meses no cargo, ela dissolveu a Câmara Baixa do Parlamento e convocou eleições antecipadas para o dia 8 de fevereiro. A manobra política tem um objetivo claro: capitalizar sua atual popularidade para conquistar uma bancada legislativa mais robusta e, assim, aprovar uma medida econômica polêmica.

O plano econômico por trás da decisão

No centro da estratégia de Takaichi está a promessa de um corte de 8% no imposto sobre alimentos, que seria suspenso por um período de dois anos. A líder argumenta que a medida é necessária para aliviar o custo de vida das famílias japonesas, pressionado pela inflação persistente. Ela garantiu que o governo não emitirá nova dívida para financiar a isenção, sugerindo uma revisão nos subsídios públicos em vigor como possível fonte de recursos.

No entanto, a proposta gera intenso debate e preocupação entre economistas. O imposto sobre consumo, que inclui a alíquota de 8% sobre alimentos e 10% sobre serviços, é uma fonte vital de receita para um Estado que enfrenta custos sociais crescentes, impulsionados pelo rápido envelhecimento da população. A eliminação temporária da taxa sobre alimentos criaria um rombo anual de aproximadamente 5 trilhões de ienes (cerca de R$ 170 bilhões), valor equivalente ao orçamento anual do país para educação.

Riscos fiscais em um país já endividado

A fragilidade fiscal do Japão torna a proposta especialmente arriscada. A preocupação dos mercados com a saúde financeira do país já elevou os rendimentos dos títulos públicos a patamares não vistos em quase três décadas. Um corte de impostos de tal magnitude, sem um plano de compensação sólido, poderia abal ainda mais a confiança dos investidores, potencialmente desencadeando uma onda de vendas de títulos e acelerando a inflação.

O Partido Liberal Democrático (PLD), de Takaichi, historicamente resistia a cortes no imposto sobre consumo, temendo exatamente essa erosão da credibilidade fiscal. Agora, a primeira-ministra parece mudar o rumo. “Vamos reformular as políticas econômicas e fiscais do passado. Meu governo vai acabar com uma política fiscal excessivamente restritiva e com a falta de investimentos para o futuro”, declarou ela a jornalistas.

Contexto inflacionário e posição da oposição

A pressão por alívio tributário não vem apenas do governo. A inflação no Japão superou a meta de 2% do Banco do Japão pelo quarto ano consecutivo, com os preços dos alimentos sendo um dos principais vetores. Esse cenário fez com que partidos de oposição também passassem a defender, em diferentes graus, a redução ou eliminação do imposto sobre o consumo, colocando o tema no centro do debate eleitoral que se inicia.

Paradoxalmente, a decisão de Takaichi ocorre em um momento de gastos públicos elevados. Seu governo elaborou um orçamento recorde de US$ 783 bilhões (R$ 4,2 trilhões) para o próximo ano fiscal, além de um pacote de estímulo para conter o impacto do custo de vida. A aposta da premiê é que os eleitores priorizem o alívio imediato no bolso em detrimento dos alertas de longo prazo sobre a sustentabilidade da dívida pública, uma das mais altas do mundo. O resultado das urnas em 8 de fevereiro definirá se a estratégia política irá prevalecer sobre a cautela econômica.