Irã propõe diluir urânio enriquecido em troca do fim de sanções dos EUA
Irã propõe diluir urânio em troca do fim de sanções dos EUA

Irã sinaliza diluição de urânio enriquecido em troca do fim de sanções dos EUA

O Irã apresentou sua primeira proposta pública de concessão nas negociações com os Estados Unidos sobre o controverso programa nuclear do país. A sinalização envolve a diluição do estoque de urânio enriquecido, uma medida técnica que reduziria significativamente o risco de uso militar do material radioativo.

Proposta condicional e contexto tenso

A proposta foi mencionada nesta segunda-feira (9) pelo chefe da Organização de Energia Atômica do Irã, Mohammad Eslami, durante uma conversa com jornalistas em Teerã. Segundo ele, o país estaria disposto a adotar essa medida crucial caso os Estados Unidos suspendam as sanções econômicas impostas à teocracia iraniana.

Dados da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) indicam que o Irã possui cerca de 400 quilos de urânio enriquecido a 60%, um nível considerado sensível por permitir a produção de armas nucleares de baixo rendimento. Para bombas mais potentes, o enriquecimento costuma ultrapassar 80%.

Obstáculos políticos e regionais

A possibilidade de um alívio nas sanções, porém, parece distante no atual cenário geopolítico. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem adotado uma postura dura em relação ao Irã e reforçou recentemente o cerco militar ao país.

Em 2018, durante seu primeiro mandato, Trump retirou os EUA do acordo nuclear firmado com Teerã, alegando que o regime iraniano descumpria compromissos. Desde então, segundo a AIEA, o Irã passou a violar gradualmente os limites do pacto, ultrapassando o que o órgão classificou como “linhas vermelhas”.

Israel, principal rival regional do Irã e potência nuclear não declarada, estima que o material acumulado seria suficiente para até 15 ogivas de menor potência. No ano passado, Israel e Irã chegaram a se enfrentar em um conflito direto de 12 dias.

Negociações recentes e propostas alternativas

Na sexta-feira (6), Estados Unidos e Irã realizaram, em Omã, a primeira rodada de negociações indiretas desde a guerra. Eslami classificou o encontro como difícil e afirmou que a relação entre os países é marcada por “falta de confiança mútua”.

Ainda assim, disse que o Irã permanece aberto ao diálogo e lembrou que instalações não atingidas por ataques americanos em 2025 foram inspecionadas pela AIEA, embora o diretor do órgão, o argentino Rafael Grossi, reclame da falta de acesso total.

Paralelamente, a Rússia, aliada de Teerã, apresentou na semana passada uma proposta alternativa para custodiar o estoque de urânio enriquecido fora do território iraniano. Moscou sugeriu retirar o material do país como forma de reduzir tensões e facilitar um eventual acordo.

Detalhes técnicos e impasses fundamentais

Do ponto de vista técnico, a diluição do urânio enriquecido envolve a adição de material empobrecido, um procedimento comum em processos de desmantelamento de arsenais nucleares, quando combustível militar é reaproveitado para uso civil.

  • Reatores de usinas nucleares utilizam urânio com enriquecimento entre 3% e 5%.
  • Aplicações médicas e navais demandam níveis mais elevados de enriquecimento.

Enquanto Washington defende o fim completo do programa nuclear iraniano, posição rejeitada por Teerã, Israel vai além e cobra também o desmantelamento da capacidade iraniana de lançar mísseis balísticos, considerados uma ameaça regional apesar do desempenho limitado no último conflito.

Agora, o presidente americano volta a ameaçar novas ações, aproveitando um momento de instabilidade interna no país persa, que reprimiu duramente protestos contra o regime em janeiro. O cenário permanece complexo, com diálogos frágeis e interesses estratégicos em jogo.