Presidente do Irã admite 'vergonha' por repressão e nega meta de bomba atômica
Irã: presidente admite vergonha por repressão e nega bomba atômica

Presidente iraniano expressa constrangimento por violência contra manifestantes e reafirma posição sobre armamento atômico

O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, fez declarações marcantes durante as comemorações do 47º aniversário da Revolução Islâmica de 1979, realizadas nesta quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026. Diante de multidões reunidas em atos oficiais por todo o país, o mandatário admitiu sentir "grande vergonha" pela repressão violenta aos protestos que abalaram o regime nos últimos meses, ao mesmo tempo em que negou que a nação persa tenha como objetivo fabricar armas nucleares.

Discurso de conciliação em meio a crise interna

Pezeshkian tentou transmitir uma mensagem de união nacional após as manifestações que desencadearam uma das crises mais delicadas enfrentadas pelo regime dos aiatolás nos últimos anos. "Estamos envergonhados perante o povo. Temos a obrigação de servir a todos que foram prejudicados nesse processo. Estamos prontos para ouvir a voz da população. Somos servidores do povo e não buscamos confrontá-lo", afirmou o presidente durante seu discurso emocionado.

As manifestações no início do ano resultaram em confrontos intensos com as forças de segurança, prisões em massa e, segundo organizações não governamentais internacionais, mais de 6 mil mortos, incluindo centenas de crianças. Um sindicato de professores estima que ao menos 213 menores tenham perdido a vida durante os protestos que sacudiram diversas cidades iranianas.

Divisão interna evidenciada durante celebrações

As comemorações oficiais da Revolução Islâmica foram marcadas por grandes atos pró-governo exibidos pela televisão estatal, com bandeiras americanas sendo queimadas e gritos de "morte à América" ecoando pelas praças. No entanto, na véspera das celebrações, moradores de Teerã relataram ouvir, a partir de janelas e telhados, gritos de "morte ao ditador", em clara referência ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, evidenciando a profunda divisão interna que persiste no país.

Apesar do discurso conciliador, o presidente evitou atender ao apelo de líderes reformistas para exigir a libertação de dirigentes detidos recentemente. A Frente Reformista alertou que o silêncio do governo seria interpretado como traição às promessas feitas na campanha de Pezeshkian e um "golpe à paz". Advogados dos presos afirmam que eles estariam mantidos em confinamento solitário, enquanto veículos alinhados às forças de segurança os acusam de "sedição" por tentarem organizar uma conferência nacional com objetivo de provocar mudanças políticas significativas.

Negociações nucleares em meio a desconfiança ocidental

Em relação ao polêmico programa nuclear iraniano, Pezeshkian reiterou estar disposto a negociar e "pronto para qualquer tipo de verificação" que comprove que o país não busca desenvolver armas atômicas. No entanto, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão de fiscalização nuclear das Nações Unidas, não consegue realizar inspeções completas no estoque nuclear iraniano há vários meses, o que alimenta a desconfiança ocidental sobre as verdadeiras intenções de Teerã.

"O alto muro de desconfiança criado pelos Estados Unidos e pela Europa, por meio de declarações e ações passadas, não permite que essas conversas avancem", declarou Pezeshkian durante seu pronunciamento. "Ao mesmo tempo, estamos empenhados com total determinação em dialogar com os nossos países vizinhos, visando a paz e a estabilidade na região."

Tensões internacionais e ameaça de confronto militar

As tratativas entre Teerã e Washington sobre o programa nuclear iraniano permanecem incertas e carregadas de tensão. Do lado americano, o presidente Donald Trump afirmou na terça-feira, 10 de fevereiro, que considera enviar uma segunda frota de ataque com porta-aviões ao Oriente Médio caso as negociações fracassem completamente. O governo iraniano, por sua vez, tem reiterado que está preparado para enfrentar qualquer confronto militar que possa surgir desta situação delicada.

A possibilidade de um confronto militar direto entre as duas nações está efetivamente em cima da mesa, criando um cenário geopolítico extremamente volátil na região do Oriente Médio. Enquanto isso, o presidente Pezeshkian tenta equilibrar as demandas internas por reformas com as pressões externas relacionadas ao programa nuclear, em um dos momentos mais desafiadores da história recente do Irã.