O Irã demonstrou uma abertura inédita para reduzir seu programa nuclear em troca de alívio econômico. Nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, o chefe da agência de energia atômica iraniana, Mohammad Eslami, afirmou que o país está disposto a "diluir" seu estoque de urânio altamente enriquecido caso os Estados Unidos suspendam todas as sanções impostas contra Teerã.
Declaração estratégica em meio a negociações
A declaração de Eslami, divulgada pela agência de notícias estatal IRNA, ocorre poucos dias após a retomada das negociações diretas entre Washington e Teerã. O anúncio representa um gesto diplomático significativo em um contexto de tensões prolongadas, embora permaneçam dúvidas sobre o alcance exato da proposta.
Eslami indicou especificamente a possibilidade de diluir o urânio enriquecido a 60% sob posse do país, mas não esclareceu se a condição se refere a todas as sanções internacionais ou apenas às aplicadas pelos Estados Unidos. Essa ambiguidade pode se tornar um ponto de discórdia nas conversas futuras.
Contexto do programa nuclear iraniano
O Irã firmou em 2015 um acordo histórico com grandes potências, comprometendo-se a limitar seu urânio enriquecido a uma taxa de 3,67%. No entanto, o país frequentemente excedeu esse limite, elevando o enriquecimento do metal radioativo para 60%, um nível que gera preocupações internacionais sobre possíveis aplicações militares.
Atualmente, a Agência Internacional de Energia Atômica estima que o Irã possua um estoque de aproximadamente 440 kg de urânio enriquecido. Esse material é considerado crucial para a produção de armas nucleares, o que explica a apreensão de nações como Estados Unidos e Israel.
Preocupações e ataques anteriores
A posse de urânio altamente enriquecido por Teerã tem sido uma fonte constante de tensão na região. Em julho de 2025, Estados Unidos e Israel promoveram um ataque coordenado a instalações nucleares iranianas, visando impedir o avanço do programa atômico do país. Esse episódio destacou os riscos de uma escalada militar.
Em resposta a essas preocupações, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou em um fórum em Teerã no domingo, 8 de fevereiro: "Eles temem nossa bomba atômica, enquanto nós não estamos buscando uma". Araghchi descartou a possibilidade de abandonar completamente o enriquecimento de urânio, uma demanda histórica de Washington.
Retomada das negociações diplomáticas
Estados Unidos e Irã retomaram oficialmente as negociações na sexta-feira, 6 de fevereiro, durante um encontro em Mascate, Omã. Esta cúpula marcou o primeiro compromisso diplomático direto entre os países desde a breve guerra de junho de 2025, embora tenha terminado sem avanços concretos nos objetivos de cada nação.
As posições permanecem distantes: Teerã insiste que as conversas se concentrem exclusivamente na questão nuclear, enquanto Washington busca uma abordagem mais ampla, que inclua mísseis balísticos e grupos armados regionais. Além disso, a Casa Branca expressa preocupações contínuas com alegações de desrespeito aos direitos humanos no Irã.
Cenário militar e desconfianças
Araghchi também expressou ceticismo sobre a seriedade dos Estados Unidos nas negociações, mencionando que Teerã não teme o "destacamento militar deles na região". O comentário foi uma referência direta à chegada do porta-aviões USS Abraham Lincoln ao Mar Arábico, um dia após a visita de negociadores americanos à embarcação.
Embora o presidente Donald Trump tenha classificado o diálogo inicial como "muito bom", pouco mudou na prática. Washington continua a reforçar sua presença militar na região, mantendo a ameaça de um conflito armado como pano de fundo de todas as discussões diplomáticas.
O futuro das negociações permanece incerto, com ambas as partes adotando posições firmes. A oferta iraniana de diluir urânio representa uma potencial abertura, mas sua implementação depende de concessões mútuas que ainda parecem distantes no horizonte político.