A situação na Venezuela continua a ser uma fonte de grande preocupação para o Brasil, não apenas para o governo, mas para toda a nação. Como vizinhos diretos, com uma extensa e vulnerável fronteira, as consequências da instabilidade no regime de Caracas nos atingem de forma mais direta do que a outros países latino-americanos.
Uma Ditadura que Permanece de Pé
Embora tenha ocorrido a captura cinematográfica do ditador Nicolás Maduro, a estrutura da ditadura venezuelana se manteve intacta. A oposição continua amordaçada, com suas lideranças presas ou silenciadas, e a imprensa segue sob forte controle. No entanto, o cenário se complica ainda mais com a chegada de novos atores ao poder.
Os novos dominadores no cenário político venezuelano demonstram clara disposição em fazer acordos, desde que encontrem submissão. As ofertas imediatas são tentadoras para seus interesses: 50 milhões de barris de petróleo, restrições a mercados considerados hostis e a garantia de que os dólares que entrarem no país retornarão rapidamente na forma de compras de produtos essenciais.
Nesse jogo, os Estados Unidos, de certa forma, fecham um "negócio da China", em contraste com os chineses, que veem sua principal fonte de abastecimento de petróleo ser sacrificada. Tudo isso se desenrola sob o olhar passivo dos generais bolivarianos, outrora orgulho do ditador deposto, que preferem adotar uma postura de observação diante das crises mais agudas.
Impactos Diretos e Custo Social para o Brasil
A primeira e mais imediata preocupação brasileira é a possibilidade de novas levas de venezuelanos fugindo da instabilidade. O Brasil já enfrenta há tempos o desafio de acolher milhares de refugiados, concentrados principalmente no estado de Roraima.
Não há motivos para acreditar que essas pessoas, que já enfrentaram tantas dificuldades, estejam dispostas a arrumar as malas e retornar agora. As incertezas do outro lado da fronteira permanecem enormes. Na dúvida, a opção mais segura é não arriscar. Enquanto isso, o custo social para o Brasil só aumenta, pressionando serviços públicos e a economia local.
A Crise Venezuelana e a Polarização Eleitoral no Brasil
A crise venezuelana também aporta sua contribuição para o cenário de polarização política que marca o ano eleitoral de 2026 no Brasil. Esquerda e direita são chamadas a se explicar diante de um fato tão relevante para a história do continente.
O governo atual busca capitalizar a situação, defendendo que a América Latina – e o Brasil em particular – tem o dever de apoiar um vizinho violentado pela potência do Norte. A mensagem é clara: a fratura que dói na Venezuela é um risco que pode se espalhar por todo o corpo latino-americano, como já sentem colombianos e cubanos. Brasília já emitiu discursos firmes contra futuras incursões da Casa Branca na região.
Por outro lado, a oposição ao presidente Lula adota uma estratégia diferente. Seu foco é manter viva na memória do eleitor a imagem da relação fraternal do presidente com o ditador Maduro, atribuindo a Lula responsabilidades por uma tragédia que pode se prolongar por muitos anos na região. A estratégia de Washington, que insiste em não estabelecer prazos para a normalização do país, acaba por alongar ainda mais esse cenário.
Lula, por sua vez, já demonstra cautela. O presidente não se refere mais a Maduro, considerado politicamente morto, e evita mencionar seu nome. A postura encontra eco em velhos companheiros do Nordeste, que lembram um antigo ensinamento da política: defunto político a gente leva até a beira da cova. Não entra nela.