França em polarização: ultradireita avança em eleições locais enquanto esquerda domina Paris
Os franceses foram às urnas no domingo, 15 de março de 2026, para o primeiro turno das eleições municipais, em uma disputa vista como um termômetro crucial do cenário político do país a pouco mais de um ano da próxima eleição presidencial. A votação foi marcada pelo significativo avanço da ultradireita em diversas cidades, enquanto a esquerda manteve sua liderança consolidada na capital Paris e em outras metrópoles importantes.
Avanço expressivo da extrema direita
O partido de extrema direita Reagrupamento Nacional (RN) e seus aliados conquistaram posições de destaque em várias cidades do sul da França, como Nice, Toulon, Nîmes e Carcassonne. Em outras regiões, prefeitos ligados à legenda já garantiram vitória direta no primeiro turno, incluindo os dirigentes de Perpignan, Fréjus e Hénin-Beaumont. Nas redes sociais, a líder do RN, Marine Le Pen, que está inelegível sob acusações de desvios de verba pública, classificou o resultado como "uma grande vitória para o nosso movimento".
O principal nome da extrema direita para a sucessão presidencial, o eurodeputado Jordan Bardella, que lidera pesquisas de intenção de voto, afirmou que a votação municipal já sinaliza mudanças profundas no país. "A mudança não espera até 2027. Ela começa neste domingo", declarou Bardella, convocando os eleitores a apoiarem "prefeitos profundamente patriotas" no segundo turno.
Esquerda mantém força em Paris e Marselha
Na capital francesa, a extrema direita não despontou como favorita. Paris é governada pela esquerda desde 2001 e voltou a registrar vantagem desse campo político no primeiro turno das eleições municipais. O deputado socialista Emmanuel Grégoire, de centro-esquerda, apareceu na liderança com cerca de 36,5% dos votos. "O povo de Paris nos colocou confortavelmente na liderança neste primeiro turno", comemorou o aliado da atual prefeita Anne Hidalgo, que decidiu não disputar um terceiro mandato.
Em Marselha, a segunda maior cidade do país, o prefeito de centro-esquerda do Partido Socialista, Benoît Payan, ficou na liderança por uma margem mínima. Logo atrás, está o candidato de extrema direita do Reagrupamento Nacional, Franck Allisio, demonstrando a intensa disputa que caracteriza o cenário político francês atual.
Dilema das alianças com radicais
O crescente fortalecimento dos extremos significa que partidos tradicionais terão uma escolha difícil a fazer: devem a centro-direita e a centro-esquerda formar alianças com seus respectivos colegas radicais do campo ideológico? Do ponto de vista eleitoral, os acordos podem fazer sentido para garantir vitórias no segundo turno, mas a desvantagem é o potencial dano à reputação dos políticos tradicionais caso se aproximem de partidos que normalmente condenam, bem como o aprofundamento da polarização política no país.
Em Paris, entre os classificados para o segundo turno está Sophia Chikirou, do radicalíssimo França Insubmissa. Grégoire prometeu não fazer nenhum pacto com a legenda de extrema esquerda, mas esse sacrifício pode lhe custar a vitória. Sua adversária é a conservadora Rachida Dati, ex-ministra da Cultura do partido de centro-direita Os Republicanos, que ficou com 25% dos votos. Ela também prometeu não formar um pacto com a ultradireitista Sarah Knafo, da sigla Reconquista, que passou raspando para o segundo turno, colocando ambos os candidatos em situação delicada.
Em Marselha, a situação é similar: não há indícios concretos de que vá acontecer, mas é possível que os socialistas decidam fazer um pacto com a sigla esquerdista para salvar Payan – enquanto a candidata dos Republicanos, Martine Vassal, estuda se aliar ao Reagrupamento Nacional para impedir que os rivais cheguem ao poder.
Segundo turno decisivo
O segundo turno do pleito deve acontecer no próximo domingo, 22 de março, e promete ser um momento decisivo para o futuro político da França. As eleições municipais são vistas como um termômetro crucial para a corrida presidencial de 2027, indicando uma crescente polarização entre os extremos políticos que pode redefinir as alianças tradicionais e o cenário eleitoral do país nos próximos anos.
