Europa acusa EUA de minar Otan e ordem global; Washington nega e cobra mais gastos
Europa acusa EUA de minar Otan; Washington nega e cobra

Europa alerta para ameaça dos EUA à ordem global, enquanto Washington nega e cobra mais gastos com defesa

Um relatório da Conferência de Segurança de Munique lançou um alerta contundente: a maior ameaça ao sistema internacional atual vem de dentro, especificamente da mudança de postura dos Estados Unidos em relação às suas alianças históricas. O documento, que prepara o terreno para um confronto ideológico na conferência que se inicia nesta sexta-feira, qualifica essa percepção europeia como uma constatação dolorosa e acusa o governo de Donald Trump de promover um autoritarismo competitivo.

Embaixador americano rejeita diagnóstico e pressiona por maior contribuição europeia

Em resposta direta, o embaixador dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Matthew Whittaker, rejeitou veementemente o diagnóstico do relatório. Em declarações a repórteres em Munique nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, Whittaker insistiu que Washington não deseja desmantelar a aliança nem minar a ordem global.

Estamos tentando fortalecer a Otan, não nos retirar ou rejeitá-la, mas sim fazê-la funcionar como deveria, como uma aliança de 32 aliados fortes e capazes, afirmou o diplomata.

No entanto, ele aproveitou a ocasião para reiterar uma cobrança constante: que os parceiros europeus assumam o ônus de sua própria defesa e aumentem substancialmente seus gastos militares. Whittaker argumentou que o objetivo americano é simplesmente equilibrar as obrigações de segurança entre os membros da aliança.

Relatório europeu pinta cenário de ruptura e necessidade urgente de autonomia

O relatório de Munique, por sua vez, descreve um cenário de crescente preocupação no Velho Continente. O texto afirma que a Europa observa a descida dos Estados Unidos rumo a práticas autoritárias com preocupação, ou mesmo horror, chegando a questionar a resiliência da própria democracia americana.

Entre os pontos críticos destacados, o documento aponta:

  • O afastamento dos EUA dos princípios liberais que sustentaram a ordem pós-Segunda Guerra.
  • A possibilidade de Washington estar criando uma ordem pós-americana.
  • A percepção de que a dependência militar europeia e a política de acomodação chegaram ao limite.

O diagnóstico é claro: a Europa precisa buscar autonomia militar e ser mais assertiva para enfrentar as exigências do governo Trump, que incluem acordos comerciais considerados contrários ao livre comércio e violações flagrantes da soberania de outros países.

Histórico de tensões abala a aliança transatlântica

As fissuras na relação não são novidade. O discurso do então vice-presidente americano, J.D. Vance, na edição do ano passado da conferência, já havia marcado um ponto de virada. Na ocasião, Vance acusou as elites europeias de suprimir a liberdade de expressão e facilitar a imigração em massa, sinalizando que o governo Trump não seria mais um parceiro confiável.

Desde então, uma série de desentendimentos públicos tem abalado a aliança:

  1. Pressão americana para que a Ucrânia faça concessões territoriais à Rússia.
  2. Ameaças de anexação da Groenlândia feitas por Trump.
  3. Medidas protecionistas de Washington, como tarifas e proibições de investimento estrangeiro.

Mais recentemente, declarações de Trump que menosprezaram a coragem de soldados europeus da Otan no Afeganistão causaram profunda indignação entre militares do continente, aprofundando ainda mais a crise de confiança.

O caminho adiante: coragem política e pensamento inovador

O relatório finaliza com um apelo por ação. Ele sugere que os líderes europeus precisam se adaptar às técnicas do governo Trump e serem mais ousados em sua tomada de decisões. Para resistir aos demolidores de forma eficaz, é preciso muito mais coragem política e pensamento inovador, observa o texto.

Enquanto isso, do lado americano, a mensagem do embaixador Whittaker permanece focada na contribuição financeira. A expectativa, segundo ele, é que a Europa se iguale, se fortaleça e compartilhe o ônus da segurança europeia com os Estados Unidos, assumindo a defesa convencional do continente com o apoio do guarda-chuva nuclear americano.

O palco está armado para a Conferência de Segurança de Munique, onde essas visões diametralmente opostas sobre o futuro da Otan e da ordem global deverão colidir abertamente, definindo os rumos de uma das alianças mais importantes do século XX, agora sob severo teste no século XXI.