EUA intensificam pressão sobre rotas de energia em disputa com a China
EUA pressionam rotas de energia na disputa com a China

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com o presidente chinês, Xi Jinping, em imagem de arquivo. Nos últimos meses, os Estados Unidos intensificaram sua atuação em pontos estratégicos das rotas globais de energia e comércio, ampliando sua presença em diferentes frentes da disputa geopolítica atual. O que parecem ser crises distintas pode indicar um padrão: o uso crescente do controle sobre gargalos marítimos, fornecedores de petróleo e corredores comerciais como instrumento de pressão na disputa estratégica com a China.

Visita de Trump à China em meio a tensões

Trump disse em 1º de maio que sua viagem a Pequim entre 13 e 15 de maio será "incrível", sendo a primeira visita de um presidente americano à China em quase uma década. No entanto, a visita é marcada por tensões ampliadas que se estendem do Oriente Médio à América Latina e ao Sudeste Asiático. Após um primeiro ano de governo com escalada da guerra comercial, a viagem funciona como um teste para a capacidade de ambos os países administrarem tensões sem romper o diálogo. Na véspera, o chanceler chinês conversou por telefone com o secretário de Estado dos EUA sobre a visita e temas sensíveis como Taiwan e Oriente Médio, sinalizando a tentativa de manter comunicação aberta.

Conexão entre Venezuela, Ormuz e Malaca

Analistas apontam que os movimentos recentes dos EUA incidem sobre o abastecimento de energia chinês. Antes da crise no Golfo Pérsico, cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã iam para a China. Ao interferir nesse fluxo, os EUA pressionam Teerã e ampliam a volatilidade no mercado global de energia. A pressão sobre a Venezuela, que culminou na captura de Nicolás Maduro, segue lógica semelhante, atingindo outro fornecedor relevante para Pequim. Já as movimentações no Sudeste Asiático focam em rotas marítimas críticas para a China.

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Para o cientista político Mauricio Santoro, as ações refletem tanto respostas a crises regionais quanto uma estratégia deliberada. "Existe um tema que une democratas e republicanos: a preocupação com a China. A ascensão chinesa é vista como ameaça, levando a iniciativas para criar obstáculos ao desenvolvimento econômico chinês", afirma. Ações militares indiretas, sanções e pressões diplomáticas são mobilizadas de forma combinada, afetando diretamente os interesses chineses.

Disputa sai do comércio para rotas de energia

O analista Lucas Leite descreve o cenário como "pressão por fricção": decisões convergentes sobre vulnerabilidades chinesas. "Essas ações pressionam a China em seu ponto de maior vulnerabilidade estrutural, o abastecimento de energia. O efeito acumulado encarece o acesso da China à energia e aumenta a incerteza", explica. Esse deslocamento da disputa reflete um desequilíbrio: a China avança em comércio e tecnologia, enquanto os EUA mantêm vantagem militar, especialmente naval. "Os EUA estão perdendo terreno em comércio e tecnologia, aumentando a tentação de usar o poder militar para obter resultados econômicos", diz Santoro.

O 'dilema de Malaca' e a vulnerabilidade chinesa

Os gargalos marítimos, como os estreitos de Ormuz e Malaca, são cruciais. Ormuz responde por um quinto do petróleo transportado por via marítima, enquanto Malaca, por onde passam mais de 80% das importações de petróleo da China, é vital. Esse cenário é conhecido como "Dilema de Malaca", expressão cunhada em 2003 pelo então presidente chinês Hu Jintao. Em abril, os EUA firmaram parceria de defesa com a Indonésia, ampliando a capacidade de vigilância sobre o estreito. Para analistas, o movimento não implica controle direto, mas mostra capacidade de pressionar a rota, gerando custo e incerteza.

Pressão por fricção, não por estrangulamento

A geografia reforça a sensibilidade: no trecho mais estreito, Malaca tem pouco mais de 2 km de largura. No entanto, a China desenvolveu resiliência, com reservas estratégicas, frota de petroleiros paralela e transição energética acelerada. Veículos elétricos e híbridos já representam mais da metade das vendas no país. "O que acontece é uma fricção: o petróleo fica mais caro, a logística mais complicada, mas não há um estrangulamento sistêmico", afirma Leite. Os efeitos já são visíveis: aumento de preços e pressão sobre refinarias independentes, mas administráveis até agora.

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Contra-ataque chinês com minerais críticos

A China domina cerca de 70% da extração e 90% do processamento global de minerais críticos, essenciais para tecnologia, defesa e energia limpa. Essa posição oferece uma alavanca de negociação poderosa. "A dependência dos EUA em relação aos minerais chineses é, no curto prazo, mais difícil de contornar do que a dependência da China em relação ao petróleo", avalia Leite. Além disso, a China reduz sua exposição ao sistema financeiro dominado pelos EUA, ampliando o uso do yuan em transações energéticas e mantendo relações com países sob sanção. O risco de efeitos adversos da estratégia americana cresce, aumentando a instabilidade global.

Entre pressão e negociação

A visita de Trump a Pequim se torna um teste importante. De um lado, os EUA ampliam instrumentos de pressão; de outro, Pequim demonstra capacidade de absorver custos. O encontro pode indicar até que ponto a pressão sobre rotas energéticas será usada como ferramenta de negociação ou se consolidará como fator permanente de tensão. A disputa entre EUA e China já não se limita a tarifas ou tecnologia, mas passa pelas rotas do petróleo e pela capacidade de transformar fluxos comerciais em instrumentos de pressão. No entanto, pressionar nem sempre significa controlar, e o custo dessa estratégia pode ser compartilhado por todos.