Governo Trump ordena saída de delegado da PF que atuava no caso Ramagem
A encarregada de Negócios interina da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, Kimberly Kelly, foi convocada para prestar esclarecimentos nesta terça-feira (21) ao Ministério das Relações Exteriores (MRE). O motivo foi o pedido formal do governo de Donald Trump para que o delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho deixe o território americano imediatamente.
Encontro diplomático e posição brasileira
O encontro entre Kimberly Kelly e Christiano Figueiroa, atual diretor do Departamento de América do Norte do MRE, durou aproximadamente uma hora. A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil emitiu um comunicado padrão, afirmando: "A encarregada de Negócios da Embaixada dos EUA Kimberly Kelly reuniu-se com autoridades do Ministério das Relações Exteriores. Não comentamos conversas diplomáticas privadas". Fontes da diplomacia brasileira confirmaram a reunião e a gravidade do assunto.
Mais cedo, durante viagem à Europa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi questionado sobre o caso. Lula declarou que o governo brasileiro analisaria os fatos para decidir como reagir, mencionando explicitamente o princípio da reciprocidade. "Fui informado hoje de manhã, acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil", afirmou o presidente, acrescentando que não aceitaria "essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas pessoas americanas querem ter com relação ao Brasil".
Acusações americanas e contexto do caso
O governo americano, sem citar nomes, publicou em uma rede social que uma autoridade brasileira tentou "contornar pedidos formais de extradição" para promover "perseguições políticas" em solo estadunidense. O texto oficial afirmou: "Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, pedimos que o funcionário brasileiro em questão deixe o país por tentar fazer isso".
Marcelo Ivo de Carvalho foi designado para atuar em Miami em março de 2023, em uma missão junto ao Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE) com duração inicial de dois anos. Suas funções incluíam a identificação e prisão de foragidos da Justiça brasileira nos EUA. Em março de 2025, uma portaria prorrogou sua permanência na missão até agosto deste ano.
Conexão com o caso Ramagem e substituição
O caso ganhou contornos políticos após a detenção do ex-deputado Ramagem pelo ICE no dia 13 de abril em Orlando, Flórida. A PF informou na época que ele foi preso por questões migratórias. Ramagem foi solto dois dias depois e, em um vídeo, agradeceu à cúpula do governo Trump pela liberação, afirmando que foi um procedimento administrativo sem intervenção judicial.
Curiosamente, a Polícia Federal já havia nomeado uma substituta para Carvalho antes mesmo do anúncio público da expulsão. A delegada Tatiana Alves Torres foi designada para assumir a função de oficial de ligação junto ao ICE em Miami. A nomeação foi publicada no Diário Oficial da União em 17 de março.
Tatiana Alves Torres é delegada da PF desde 2002, formada em Direito pela UFMG, com pós-graduação em Ciências Penais e Segurança Pública. Ela possui extensa experiência em crimes ambientais, financeiros, crime organizado e migração. Atualmente ocupa o cargo de delegada de classe especial e coordenadora-geral de Gestão de Processos da PF. Com formação internacional e fluência em inglês e francês, ela está preparada para assumir a delicada posição diplomática.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também se manifestou sobre o caso, declarando: "Essa notícia não tem fundamento. Estamos aguardando esclarecimentos das autoridades americanas". Vieira ressaltou que o delegado trabalhava em conjunto com as autoridades americanas em Miami e que "todos sabiam" dessa função, sugerindo que a medida foi surpreendente.



