Especialista italiano avalia resiliência do regime iraniano após morte de líder supremo
Apesar dos ataques em curso e da comoção internacional provocada pela morte de Ali Khamenei, líder supremo do Irã, o regime dos aiatolás pode não estar tão próximo do colapso quanto algumas potências ocidentais desejariam. Em entrevista exclusiva à agência de notícias Ansa, Federico Donelli, professor de relações internacionais da Universidade de Trieste, na Itália, sustenta que a estrutura político-institucional construída no país persa nas últimas quatro décadas demonstra robustez impressionante.
Estrutura horizontal confere capacidade de resistência
"Em 40 anos, foi criada e consolidada no Irã uma estrutura que pode seguir adiante e funcionar", afirmou Donelli, referindo-se à notável capacidade de resiliência do sistema diante de eventos traumáticos como o ataque que vitimou Khamenei. Para o acadêmico italiano, "ainda é cedo para falar em colapso do regime", uma avaliação que contraria narrativas mais alarmistas circulando em círculos diplomáticos.
O especialista ressalta que, diferentemente do que ocorre em sistemas de estrutura vertical — como no caso da Venezuela, onde a eliminação da cúpula do poder poderia alterar completamente o cenário político —, no Irã as forças militares e as instituições estão organizadas de maneira horizontal, o que permite significativa continuidade operacional mesmo em momentos de crise profunda.
Sucessão dentro da elite e complexidade interna
A morte de Khamenei, ainda que represente "uma mudança significativa" que abre "uma nova fase para o país", já foi acompanhada pela indicação de uma liderança interina, responsável por gerir a emergência e conduzir o processo de sucessão, sempre "dentro da elite" dominante que controla o aparato estatal iraniano há décadas.
Donelli chama atenção para a complexidade do quadro interno iraniano, onde existe dissidência tanto dentro quanto fora do país, mas onde os opositores internos, segundo sua análise, não desejam um modelo de transição imposto por potências estrangeiras. Esta dinâmica interna contribui para a estabilidade relativa do sistema, mesmo sob pressão externa considerável.
Geopolítica regional e o "elefante na sala"
O professor aponta ainda o que classifica como "o elefante na sala" do tabuleiro geopolítico no Oriente Médio: os países do Golfo, que "não querem Israel como líder regional". Para ele, a narrativa ocidental que apresenta o Irã como "a matriz de todos os males" e Israel como "baluarte da democracia" é uma "categoria velha", que dificilmente será aceita pela região em sua totalidade.
"A prescindir de Khamenei, não se quer que Israel preencha o vácuo", explicou Donelli, destacando como as relações inter-regionais seguem padrões complexos que transcendem simplificações binárias. Segundo sua análise, as represálias iranianas representam uma tentativa estratégica de pressionar nações como Bahrein, Emirados Árabes Unidos e Kuwait a interceder junto aos Estados Unidos pela interrupção das hostilidades em curso.
Riscos limitados de conflito regional ampliado
"Não estava nos planos [do Irã] um conflito regional que arrastasse a todos. O objetivo é a sobrevivência do regime. Um conflito alargado poria em risco vários regimes, inclusive o saudita", argumenta o especialista, minimizando cenários catastróficos de guerra generalizada na região.
Donelli também reduz expectativas sobre uma possível união entre xiitas e sunitas em resposta à crise atual. "Não creio que se criará um bloco muçulmano. Hoje, os países tendem a mover-se de modo autônomo, ganhando mais quando são flexíveis", afirma o acadêmico, destacando o pragmatismo que caracteriza as relações interestatais no mundo islâmico contemporâneo.
Potencial para radicalização e martírio simbólico
No entanto, o professor adverte sobre possíveis consequências indiretas da crise: as comunidades muçulmanas ao redor do mundo, inclusive na Europa, podem experimentar "ondas de radicalismo" em reação aos eventos. "A ideia do martírio no Islã parte do xiismo", alerta Donelli, observando que esta dimensão religiosa poderia transformar Khamenei em figura mártir, alimentando narrativas que transcendem considerações puramente políticas.
A análise de Donelli oferece perspectiva valiosa sobre a resiliência institucional do regime iraniano, sugerindo que, apesar da morte de sua figura máxima, o sistema construído ao longo de quatro décadas possui mecanismos de continuidade que podem surpreender observadores externos. A estrutura horizontal, a sucessão controlada dentro da elite e as complexas dinâmicas regionais parecem conferir ao Irã capacidade de absorver choques que derrubariam regimes menos consolidados.
