ONU alerta: Conflito no Irã pode levar fome global a níveis recordes em 2026
O Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) emitiu um alerta urgente nesta quarta-feira, indicando que o número total de pessoas no mundo com níveis agudos de fome pode alcançar patamares históricos em 2026 se a guerra no Irã persistir em desestabilizar a economia global. As projeções mais recentes estimam que quase 45 milhões de indivíduos adicionais podem mergulhar em insegurança alimentar aguda ou em condições ainda piores caso o conflito não seja resolvido até junho. Esse contingente se somaria aos impressionantes 318 milhões de pessoas que já enfrentam essa situação crítica atualmente.
Bloqueio de rotas humanitárias e aumento de custos
Os ataques conduzidos pelos Estados Unidos e por Israel ao Irã resultaram no bloqueio de rotas chave para a ajuda humanitária, causando atrasos significativos no envio de suprimentos essenciais. A paralisação virtual do transporte marítimo no estratégico Estreito de Hormuz, combinada com os riscos crescentes para o tráfego no Mar Vermelho, já está elevando os custos de energia, combustível e fertilizantes em escala global. Esse cenário não apenas agrava a fome no Oriente Médio, mas também tem repercussões devastadoras em outras regiões do planeta.
Carl Skau, vice-diretor executivo do PMA, enfatizou a gravidade da situação em declarações a repórteres em Genebra: "Se esse conflito continuar, ele enviará ondas de choque pelo globo, e as famílias que já não conseguem pagar a próxima refeição serão as mais atingidas. Sem uma resposta humanitária adequadamente financiada, isso pode significar uma catástrofe para milhões que já estão à beira do abismo." O PMA destacou que os custos de transporte marítimo subiram 18% desde o início dos ataques, forçando o redirecionamento de algumas rotas e exacerbando os desafios logísticos.
Regiões mais vulneráveis e impactos projetados
Países da África Subsaariana e da Ásia emergem como os mais suscetíveis aos efeitos do conflito, devido à sua alta dependência de importações de alimentos e combustível. As projeções do PMA indicam aumentos alarmantes na insegurança alimentar:
- África Ocidental e Central: 12 países analisados; 10,4 milhões de pessoas a mais (aumento de 21%)
- África Oriental e Austral: 16 países; 17,7 milhões de pessoas a mais (aumento de 17,7%)
- Ásia: 10 países analisados; 9,1 milhões de pessoas a mais (aumento de 24%)
- América Latina e Caribe: 3 países; 2,2 milhões de pessoas a mais (aumento de 16%)
- Oriente Médio e Norte da África: 12 países; 5,2 milhões de pessoas a mais (aumento de 14%)
Exemplos concretos ilustram a vulnerabilidade: o Sudão, que importa aproximadamente 80% de seu trigo, enfrentará preços mais altos desse alimento básico, empurrando mais famílias para a fome. Na Somália, já assolada por uma seca severa, relatos locais apontam que o preço de produtos essenciais subiu pelo menos 20% desde o início do conflito. Ambos os países têm histórico recente de altos níveis de insegurança alimentar e episódios de fome.
Metodologia das projeções e contexto histórico
Para calcular o impacto potencial, analistas do PMA utilizaram como base o número pré-crise de pessoas incapazes de pagar uma dieta suficiente em energia, definida como 2.100 kcal por dia. Em seguida, modelaram os efeitos sustentados de um preço do petróleo em US$ 100, que eleva os custos de transporte e os preços globais de alimentos. "Ponderando os impactos pela dependência de cada país em energia e alimentos importados, recalcularam o número de pessoas que não conseguem mais pagar essa dieta, e a diferença é o aumento projetado na insegurança alimentar aguda", explicou o PMA em comunicado.
O contexto histórico reforça a preocupação: quando a guerra na Ucrânia eclodiu em 2022, a fome global atingiu níveis recordes, afetando 349 milhões de pessoas. As projeções atuais sugerem um risco de situação semelhante nos próximos meses se o conflito no Oriente Médio persistir. Além disso, os custos extras decorrentes do aumento dos preços de transporte se somam a cortes profundos nos gastos humanitários, já que doadores internacionais estão desviando recursos para áreas de defesa, comprometendo ainda mais a resposta global à crise alimentar.
