Crise na Aliança Transatlântica: Conferência de Munique Testa Laços EUA-Europa
Conferência de Munique testa laços EUA-Europa em meio a crise

Crise na Aliança Transatlântica: Conferência de Munique Testa Laços EUA-Europa

Exatamente um ano após o discurso surpreendente do vice-presidente americano JD Vance na Conferência de Segurança de Munique, onde criticou duramente as políticas europeias de imigração e liberdade de expressão, o evento retorna esta semana em um contexto ainda mais tenso. A edição de 2025 promete ser decisiva para o futuro das relações transatlânticas, marcadas por divergências profundas e questionamentos sobre a solidez da aliança que sustentou a segurança europeia por mais de sete décadas.

Delegação Americana e Liderança Mundial

O secretário de Estado e conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Marco Rubio, lidera a delegação americana nesta conferência que reúne mais de cinquenta líderes mundiais. Este encontro ocorre em um momento particularmente delicado, onde a segurança europeia parece cada vez mais precária e as garantias americanas de defesa são postas em dúvida.

A Estratégia Americana e a Crise da Groenlândia

A mais recente Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, publicada no final do ano passado, trouxe um alerta direto à Europa: o continente deve "se sustentar por si próprio" e assumir a "responsabilidade principal pela sua própria defesa". Esta posição alimentou receios de que Washington esteja cada vez menos disposto a apoiar militarmente seus aliados europeus.

Porém, foi a crise da Groenlândia que realmente abalou os alicerces da aliança. As repetidas declarações do ex-presidente Donald Trump sobre a necessidade de "assumir o controle" do território autônomo dinamarquês, sem descartar o uso da força, geraram uma reação contundente de Copenhague. O primeiro-ministro dinamarquês deixou claro que uma tomada militar americana significaria o fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte, a Otan.

Embora a crise imediata tenha sido contornada devido a outras prioridades da Casa Branca, ela deixou uma questão incômoda pairando sobre Munique: os laços de segurança entre Europa e Estados Unidos estão irremediavelmente danificados?

Análises e Perspectivas sobre a Aliança

Alex Younger, ex-chefe do Serviço Secreto de Inteligência britânico MI6 entre 2014 e 2020, ofereceu uma análise equilibrada à BBC News. Ele reconhece que a aliança transatlântica não voltará a ser como era, mas afirma que ela não está rompida. "Ainda nos beneficiamos enormemente de nossa relação de segurança, militar e de inteligência com os Estados Unidos", declarou Younger.

O ex-chefe do MI6 também endossou, como muitos analistas, a posição de Trump sobre a necessidade de a Europa arcar com uma parcela maior de sua própria defesa. "Você tem um continente de 500 milhões [Europa], pedindo a um país de 300 milhões [EUA] para lidar com um de 140 milhões [Rússia]. É o contrário do que se espera", argumentou, destacando um desequilíbrio que faz o contribuinte americano subsidiar as necessidades defensivas europeias há décadas.

Divisões Além da Defesa

As fissuras na aliança vão muito além das discussões sobre orçamentos militares e o fracasso de países como a Espanha em atingir a meta de 2% do PIB em defesa. Em áreas como comércio internacional, políticas migratórias e liberdade de expressão, a equipe de Trump mantém divergências acentuadas com os governos europeus.

Simultaneamente, líderes democraticamente eleitos na Europa observam com alarme a relação próxima entre Trump e o presidente russo Vladimir Putin, além da tendência do ex-mandatário americano em culpar a Ucrânia pela invasão russa.

Ruptura Estratégica e Alerta para a Europa

Os organizadores da Conferência de Segurança de Munique publicaram um relatório pré-evento onde Tobias Bunde, diretor de pesquisa e política, identifica uma ruptura fundamental com a estratégia americana do pós-Segunda Guerra Mundial. Esta estratégia histórica se baseava em três pilares: fé nas instituições multilaterais, integração econômica global e a convicção de que democracia e direitos humanos são ativos estratégicos.

Grande parte do pensamento atual da Casa Branca está refletido na Estratégia de Segurança Nacional. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais de Washington descreve o documento como "um alerta real, doloroso e chocante para a Europa", representando "um momento de profunda divergência entre a visão que a Europa tem de si mesma e a visão de Trump para o continente".

A estratégia estabelece como prioridade o apoio a grupos hostis aos próprios governos europeus aliados de Washington, promove o "cultivo da resistência à trajetória atual da Europa" e alerta que políticas migratórias podem levar ao risco de "apagamento civilizacional". Paradoxalmente, o mesmo documento afirma que "a Europa permanece estratégica e culturalmente vital para os Estados Unidos".

Sophie Eisentraut, da Conferência de Segurança de Munique, observa: "Atualmente, estamos testemunhando a ascensão de atores políticos que não prometem reforma ou reparação, mas que são muito explícitos em seu desejo de demolir as instituições existentes, e nós os chamamos de demolidores."

O Teste Definitivo: O Artigo 5 da Otan

A questão fundamental que paira sobre todas estas discussões é simples: "O Artigo 5 ainda funciona?" Este artigo da carta da Otan estabelece que um ataque a um país membro será considerado um ataque a todos. Por décadas, desde 1949, era dado como certo que uma invasão russa a um Estado da Otan como a Lituânia desencadearia uma resposta militar conjunta de toda a aliança, apoiada pelo poderio americano.

Embora autoridades da Otan insistam que o Artigo 5 permanece válido e em pleno vigor, a imprevisibilidade de Trump combinada com o desprezo que seu governo demonstra pela Europa colocam inevitavelmente este compromisso em xeque.

O Cenário Hipotético do "Teste de Narva"

Este questionamento se materializa no chamado "teste de Narva". Narva é uma cidade estoniana de maioria russófona localizada na fronteira com a Rússia. Em um cenário hipotético onde Moscou tentasse anexá-la sob o pretexto de "proteger compatriotas russos", o governo Trump viria em socorro da Estônia?

A mesma dúvida se aplica a possíveis ações russas no estreito de Suwalki, que separa Belarus do enclave russo de Kaliningrado, ou mesmo no arquipélago ártico de Svalbard, administrado pela Noruega, onde a Rússia já mantém uma colônia em Barentsburg.

Considerando as recentes ambições territoriais de Trump sobre a Groenlândia, ninguém pode prever com certeza como ele reagiria a uma crise destas proporções. Esta incerteza, em um momento onde a Rússia já trava uma guerra em grande escala contra a Ucrânia, pode levar a erros de cálculo perigosos com consequências imprevisíveis.

O Futuro da Aliança Transatlântica

A Conferência de Segurança de Munique desta semana deve fornecer algumas respostas sobre a direção que a aliança transatlântica está tomando. Os discursos, reuniões bilaterais e declarações oficiais oferecerão pistas sobre se as divergências atuais são superáveis ou se representam uma ruptura permanente.

Uma coisa é certa: as respostas que emergirem de Munique podem não ser aquelas que a Europa deseja ouvir. O continente se vê forçado a confrontar uma realidade desconfortável onde seu principal aliado histórico questiona os fundamentos mesmos de sua parceria de segurança, enquanto uma Rússia agressiva mantém pressão constante em suas fronteiras orientais.

O caminho adiante exigirá não apenas ajustes orçamentários e militares, mas uma reavaliação profunda das premissas que guiaram as relações transatlânticas desde o final da Segunda Guerra Mundial. A conferência em Munique representa não apenas um fórum de discussão, mas um teste crucial para a resiliência de uma aliança que moldou a ordem internacional por mais de sete décadas.