Governo ultradireitista de Kast retira apoio chileno a Michelle Bachelet para ONU
Chile retira apoio a Bachelet para ONU, contrariando Lula

Governo chileno de ultradireita retira apoio à candidatura de Bachelet para comando da ONU

Em uma decisão que coloca o Chile na contramão do Brasil e do México, o novo governo ultradireitista de José Antonio Kast retirou oficialmente, nesta terça-feira, 24 de março de 2026, o apoio à candidatura da ex-presidente socialista Michelle Bachelet para o cargo de secretária-geral das Nações Unidas. A medida representa uma ruptura clara com a política externa do governo anterior de Gabriel Boric, que havia indicado Bachelet em conjunto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governo mexicano.

Diferenças políticas tornam candidatura "inviável" segundo governo Kast

O Ministério das Relações Exteriores do Chile justificou a decisão em comunicado oficial, afirmando que "a dispersão de candidaturas de países da América Latina e as diferenças com alguns dos atores relevantes que definem este processo tornam inviável esta candidatura e o eventual sucesso desta postulação". Apesar da retirada do apoio chileno, Michelle Bachelet mantém a possibilidade de seguir com sua candidatura graças ao respaldo das outras duas potências latino-americanas que continuam apoiando sua indicação.

O governo Kast anunciou ainda que, caso Bachelet decida prosseguir com sua candidatura ao mais alto cargo das Nações Unidas, não apoiará nenhum outro concorrente no processo de seleção. Esta posição cria um cenário político complexo para a região, que tradicionalmente busca apresentar candidaturas unificadas para cargos internacionais de tamanha relevância.

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Trajetória pioneira de Bachelet e defesa de Lula por liderança feminina

Michelle Bachelet, de 74 anos e pediatra de formação, possui uma trajetória política marcante:

  • Primeira e única mulher a chegar à presidência do Chile (2006-2010 e 2014-2018)
  • Membro do Partido Socialista chileno
  • Ex-diretora-executiva da ONU Mulheres (2010-2013)
  • Ex-alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos (2018-2022)

A candidata busca substituir o português António Guterres, que conclui seu segundo mandato em 31 de dezembro de 2026. Quando anunciou o apoio à chilena, o presidente Lula destacou que sua trajetória era "marcada pelo pioneirismo", tendo trabalhado para dar "escala institucional à agenda da igualdade" e "proteger os mais vulneráveis". O mandatário brasileiro defendeu ainda que "é hora de a organização finalmente ser comandada por uma mulher".

Contexto histórico e desafios para a América Latina

A disputa pela secretaria-geral da ONU ocorre em um momento histórico significativo:

  1. Em 80 anos de existência das Nações Unidas, nenhuma mulher ocupou o cargo máximo
  2. Apenas um representante da América Latina comandou a organização: o diplomata peruano Javier Pérez de Cuéllar (1982-1991)
  3. Existe uma prática não regulamentada de alternância regional para o cargo
  4. Desta vez, caberia teoricamente à América Latina indicar o próximo secretário-geral

No entanto, as lideranças regionais não conseguiram se unir em torno de uma candidatura consensual. A Argentina lançou seu próprio candidato, o diplomata Rafael Grossi, atualmente chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de fiscalização nuclear das Nações Unidas. Esta fragmentação latino-americana, combinada com a retirada do apoio chileno, cria obstáculos significativos para qualquer candidatura oriunda da região.

A decisão do governo Kast reflete as profundas mudanças na política externa chilena sob sua administração ultradireitista, marcando uma distância clara das posições de governos progressistas da região, incluindo o do Brasil liderado por Lula. O episódio ilustra as complexas dinâmicas políticas que envolvem indicações para cargos internacionais de alto nível, onde considerações regionais, ideológicas e de gênero se entrelaçam de maneira complexa.

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