Chega no 2º turno: ascensão da extrema-direita em Portugal preocupa brasileiros
Chega no 2º turno preocupa comunidade brasileira em Portugal

A passagem do candidato André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega, para o segundo turno das eleições presidenciais portuguesas marca um momento histórico e estratégico para a direita radical no país. A votação decisiva está marcada para o dia 8 de fevereiro.

Um cenário político em transformação

O primeiro turno, realizado no domingo, 18 de janeiro, resultou em um empate técnico que obriga o segundo turno pela primeira vez em quatro décadas. António José Seguro, do Partido Socialista (centro-esquerda), liderou com 31,1% dos votos. André Ventura ficou em segundo lugar, com 23,5% dos votos, um ligeiro aumento em relação ao desempenho do Chega nas legislativas de 2025.

Apesar da classificação, as chances de vitória de Ventura são consideradas baixas pelos analistas. Uma pesquisa da Universidade Católica Portuguesa indica que 64% dos eleitores afirmam que jamais votariam no candidato do Chega no segundo turno. Em contraste, a rejeição a Seguro é a mais baixa entre todos, em 41%.

Contudo, especialistas alertam que o cenário pode mudar. O próprio Seguro não era favorito em dezembro e cresceu com o voto útil da esquerda. A campanha até fevereiro promete ser altamente polarizada.

O trunfo estratégico do Chega

Mesmo com uma provável derrota, a presença no segundo turno representa uma vitória tática para o Chega por dois motivos principais. Primeiro, Ventura terá exposição nacional máxima durante a campanha, ajudando a normalizar seu discurso e propostas. Segundo, na disputa direta, é provável que ele alcance a maior votação de sua carreira, consolidando a força do partido.

António Costa Pinto, professor da Universidade Lusófona de Lisboa, observa que se Ventura conquistar parte do eleitorado de centro e centro-direita (que somou cerca de 40% no primeiro turno) e atingir entre 30% e 35% dos votos, a agenda do Chega ganhará peso político. "Um Chega fortalecido tende a empurrar o debate político para a direita", afirma Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa.

Impacto direto na comunidade brasileira

O fortalecimento da extrema-direita gera apreensão entre os mais de 500 mil brasileiros que vivem em Portugal. A comunidade teme não apenas um apertar das leis migratórias, mas um aumento da discriminação e da xenofobia.

Em 2025, a coligação governista, que incluía o Chega, aprovou um endurecimento da legislação migratória. Para este ano, o Parlamento deve tentar aprovar uma reforma da Lei da Nacionalidade, tornando mais rigorosos os critérios para obter a cidadania portuguesa.

Ana Paula Costa, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, alerta que a normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública pode autorizar comportamentos antes impensáveis. "Ataques xenófobos e racistas tornam-se mais frequentes — contra todos", afirma. Ela cita inclusive um aumento na violência de ataques, como o caso de um menino brasileiro que teve os dedos decepados na escola.

Analistas ressaltam que Ventura não ataca diretamente os brasileiros, dizendo que os que "contribuem" são bem-vindos, e foca sua retórica contra a imigração do Sul da Ásia. No entanto, o clima geral de hostilidade afeta todos os grupos.

Contexto de uma ascensão europeia

A ascensão do Chega não é um fenômeno isolado. O partido mantém laços com outras agremiações da direita radical europeia, como o Vox (Espanha), a Reunião Nacional (França) e a AfD (Alemanha). O ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro já manifestou apoio a Ventura.

Para Riccardo Marchi, pesquisador do Instituto Universitário de Lisboa, o avanço está ligado a uma crise de expectativas. A classe média portuguesa, que ascendeu no final do século 20, vê seus filhos com dificuldades para manter o padrão de vida, muitas vezes tendo de emigrar. Apesar do crescimento econômico acima da média da UE, os salários permanecem baixos e o custo de vida, especialmente da habitação, disparou.

Ao mesmo tempo, o número de estrangeiros em Portugal saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão hoje, em um país com menos de 11 milhões de habitantes. "A sociedade portuguesa ainda não conseguiu processar esse aumento tão grande e rápido", diz Marco Lisi.

O segundo turno das presidenciais portuguesas, portanto, é mais do que uma escolha entre dois candidatos. É um teste de resiliência democrática e um termômetro do quanto a agenda da extrema-direita, com seu impacto direto na vida dos imigrantes, se consolidou no coração da Europa.