Brasil consulta aliados antes de decisão sobre Conselho de Paz proposto por Trump
O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está realizando consultas com outros países convidados para participar do Conselho de Paz antes de definir se o Brasil aderirá ao órgão internacional proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A estratégia brasileira inclui uma avaliação cuidadosa sobre uma resposta coordenada ao convite recebido na última sexta-feira (18), conforme informações de fontes próximas às discussões.
Coordenação internacional para evitar retaliações
Segundo diplomatas ouvidos sob condição de anonimato, o governo brasileiro tem considerado fundamental conhecer a lista completa de países convidados e as respectivas reações de cada nação antes de tomar uma decisão definitiva. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já manteve conversas no sábado (17) com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, sobre o tema.
A avaliação predominante no Itamaraty é que o ideal seria uma coordenação internacional sobre a resposta a Trump, visando evitar que países se exponham desnecessariamente e fiquem sujeitos a eventuais retaliações dos Estados Unidos. Um diplomata envolvido nas discussões destacou que essa articulação serviria como proteção coletiva contra medidas unilaterais.
Preocupações com sobreposição à ONU
Há uma preocupação significativa no governo brasileiro de que o Conselho de Paz proposto por Trump possa se sobrepor ao trabalho do Conselho de Segurança das Nações Unidas, o que poderia enfraquecer a organização multilateral estabelecida. O conselho integra a segunda fase do plano norte-americano para o fim do conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, mas também deve tratar de outras questões relacionadas a conflitos internacionais.
Diplomatas afirmam que tanto Vieira quanto Lula devem procurar outros países para saber quais informações eles possuem a respeito do conselho e qual é a posição adotada por cada governo. Existe também a expectativa de negociar os termos do conselho para que ele contemple demandas de outros países além dos Estados Unidos.
Exemplo francês e riscos diplomáticos
O caso da França tem sido observado com atenção pelo governo brasileiro. Na segunda-feira (19), o governo francês informou que não pretende aceitar o convite para integrar o conselho. No mesmo dia, Trump ameaçou impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses, demonstrando possíveis consequências para países que recusarem o convite.
Integrantes do governo brasileiro, no entanto, minimizam o risco de deterioração das relações com o presidente americano caso o Brasil decida não participar do colegiado. A avaliação é que Trump terá de separar temas bilaterais de questões globais, mantendo as relações diplomáticas em diferentes esferas.
Análises políticas e jurídicas em andamento
No entorno de Lula, o Conselho de Paz é visto, por ora, com desconfiança. A decisão final depende da conclusão de análises políticas e jurídicas sobre a proposta norte-americana. O governo deve usar os próximos dias para avaliar os impactos internacionais antes de definir sua posição oficial.
Além de Lula, Trump convidou líderes como Javier Milei, da Argentina, Vladimir Putin, da Rússia, e chefes de governo de países como Uzbequistão, Cazaquistão, Belarus, Alemanha, Turquia, Egito e Polônia, entre outros. Ao todo, cerca de 60 países foram convidados, número que representa menos de um terço dos membros da ONU, segundo um auxiliar do governo.
Mecanismos de funcionamento do conselho
Como revelado anteriormente, o estatuto do Conselho de Paz prevê mandatos de três anos para cada Estado-membro, com possibilidade de renovação. A organização funcionaria com base em contribuições voluntárias, e países que contribuírem com pelo menos US$ 1 bilhão garantiriam um assento permanente. Os detalhes sobre o funcionamento do grupo ainda não estão completamente claros.
A proposta recebeu críticas do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, que afirmou que o anúncio não foi coordenado com Tel Aviv e que a iniciativa vai na direção oposta à política adotada por seu governo. No início da semana, alguns países confirmaram o recebimento do convite, incluindo Israel, segundo o jornal Times of Israel.
Posicionamento crítico de Lula
O presidente Lula já se manifestou criticamente sobre Donald Trump durante evento no Rio Grande do Sul, afirmando que o americano "quer governar o mundo pelo Twitter". O presidente brasileiro comentou que Trump muda o discurso diariamente e defendeu a importância do respeito e do contato direto com as pessoas nas relações internacionais.
Segundo dois integrantes do Itamaraty, é pouco provável que haja uma recusa sem manifestação formal por parte do Brasil. Outros diplomatas avaliam a possibilidade de deixar o convite sem resposta, como forma de evitar atritos diretos com Trump. Caso haja resposta, ela deve ser feita diretamente entre os presidentes, já que o convite foi enviado por carta pessoal ao Brasil.