Apresentador iraniano chora ao anunciar morte de Khamenei; mídia estatal mistura fatos e ficção
Em um momento emocionante, um apresentador de um canal de notícias estatal iraniano chorou ao anunciar a morte do Líder Supremo, Aiatolá Ali Khamenei. Os primeiros relatos surgiram em telas estrangeiras, fora do alcance da maioria dos iranianos, com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, sugerindo que o líder havia sido morto em um ataque conjunto entre os EUA e Israel. No entanto, a televisão estatal iraniana manteve silêncio inicialmente, com autoridades não confirmando nem negando a morte.
Silêncio e desinformação na mídia estatal
Em um dos canais da emissora estatal, IRTV3, um apresentador pediu aos telespectadores que confiassem nele e nas informações mais recentes do governo, descartando as notícias da morte de Khamenei como rumores infundados. Somente na manhã seguinte, a mídia estatal noticiou a morte, horas depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciá-la publicamente nas redes sociais. Desde o início da guerra, que matou mais de 1,2 mil pessoas no Irã e se espalhou para o Líbano e países árabes do Golfo, a mídia estatal tem misturado fatos com ficção, apresentando uma versão oficial dos eventos para o público interno.
Milhões de iranianos acompanham canais de TV via satélite em língua persa com sede no exterior, mas bloqueios de internet, censura e canais restritos deixam os iranianos praticamente isolados do mundo exterior durante períodos de agitação e conflito. A BBC acompanhou a primeira semana de cobertura da guerra pela mídia estatal iraniana e constatou que ela centrou suas reportagens no sofrimento dos civis, apelos por retaliação contra inimigos e pressões por lealdade pública à República Islâmica, dando pouca atenção às instalações militares e governamentais atingidas.
Desinformação e uso de IA na propaganda
O Irã é um dos países mais repressivos do mundo em termos de liberdade de imprensa, segundo a Repórteres Sem Fronteiras. Desde a revolução de 1979, todos os meios de comunicação operam sob rígidas restrições, com a maioria dos veículos de notícias ocidentais e em língua persa proibidos de fazer reportagens no país. O aparato midiático do regime, incluindo TV, rádio, sites de notícias e redes sociais como Instagram, Telegram e X, tornou-se a principal fonte de informação para os iranianos, especialmente quando a internet é cortada.
Diversos veículos de comunicação estatais iranianos relataram que as forças iranianas mataram ou feriram centenas de soldados americanos, inflando o número de baixas inimigas. Por exemplo, a agência de notícias Tasnim informou que 650 militares dos EUA haviam sido mortos nos dois primeiros dias da guerra, enquanto o Pentágono confirmou apenas seis mortes na época. Novas tecnologias também estão ajudando a mídia estatal a disseminar propaganda, com vídeos falsos gerados por IA sendo compartilhados para distorcer a realidade.
Pequenas verdades e ceticismo necessário
O histórico do Irã de disseminar pequenas verdades juntamente com informações falsas semeou dúvidas entre críticos do regime. Quando a mídia estatal noticiou a morte de mais de 160 crianças e funcionários em um ataque a uma escola, compartilhou uma imagem aérea de um funeral coletivo que opositores alegaram ser gerada por IA. No entanto, a imagem era real, com geolocalização confirmando sua autenticidade em um cemitério próximo à escola.
Mahsa Alimardani, da organização Witness, observa que o regime iraniano frequentemente oculta provas quando é o perpetrador de abusos, mas durante a guerra também investe pesadamente na documentação de vítimas civis. Embora essa documentação possa servir à propaganda e à narrativa de guerra do Estado, isso não a torna automaticamente falsa. Alimardani enfatiza a necessidade de manter uma dose saudável de ceticismo ao lidar com reportagens de veículos estatais do Irã, destacando a complexidade da cobertura midiática em tempos de conflito.
