Uma placa de trânsito localizada na rodovia RR-205, que fornece acesso direto à Terra Indígena Raposa Serra do Sol, foi alvo de pichações contendo a sigla do Primeiro Comando da Capital, conhecido como PCC. Este incidente simbólico ocorre em um contexto de alertas internacionais sobre a crescente infiltração de facções criminosas nas estruturas do Estado brasileiro.
Relatório da Human Rights Watch exige reformulação urgente
A organização não governamental internacional Human Rights Watch, em seu relatório mundial de 2026 divulgado nesta quarta-feira, 4 de fevereiro, analisa a situação dos direitos humanos em mais de cem países, com um capítulo dedicado ao Brasil. A ONG defende que o país adote estratégias novas e eficazes para combater o crime organizado e sua penetração nas instituições públicas.
Infiltração no poder público é alarmante
Em entrevista exclusiva, César Muñoz, diretor da HRW no Brasil, revelou declarações preocupantes de um promotor responsável por investigar facções criminosas. Segundo Muñoz, o promotor afirmou que policiais estavam envolvidos em todos os casos conduzidos por ele, evidenciando uma cooptação sistemática de agentes públicos para proteger atividades ilícitas.
"As facções cooptam agentes públicos para proteger as suas atividades ilícitas. Essa infiltração no poder público às vezes também envolve políticos, principalmente a nível local. Essa é uma face muito perigosa do crime organizado, pois pode corromper as instituições por dentro", alertou Muñoz.
Propostas concretas para enfrentar o problema
A Human Rights Watch apresenta uma série de recomendações específicas para o Brasil, baseadas em evidências científicas e dados concretos. Entre as principais sugestões estão:
- Investigações aprofundadas e baseadas em inteligência para identificar vínculos entre criminosos e agentes públicos;
- Proteção dos direitos tanto da população quanto dos policiais brasileiros;
- Estratégias de segurança que priorizem a investigação policial em detrimento de abordagens militarizadas;
- Independência das perícias em todo o território nacional;
- Melhora na coordenação entre órgãos federais e estaduais para combater tráfico de armas, lavagem de dinheiro e identificar fontes de renda das facções.
Caso emblemático expõe envolvimento de policiais
Investigações recentes têm revelado a extensão das operações do PCC em diversos setores da economia e administração pública. A facção paulista demonstrou tentáculos no transporte público, mercado de combustíveis e até mesmo no uso de fundos de investimento sediados na região da Faria Lima, em São Paulo, para lavagem de capitais ilícitos.
Um caso particularmente emblemático ocorreu no fim do ano passado, quando a Justiça Militar condenou onze policiais militares por fornecerem segurança ilegal para Antonio Vinícius Gritzbach, delator do PCC que foi executado a tiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Este episódio expôs de maneira cristalina o envolvimento de agentes públicos com o crime organizado tanto na Polícia Militar quanto na Polícia Civil do estado de São Paulo.
Violência é principal preocupação nacional
A segurança pública se consolida como um dos temas de maior preocupação dos brasileiros, conforme demonstram pesquisas de opinião recentes. Um levantamento da Ipsos-Ipec divulgado na última segunda-feira, 2 de fevereiro, revela que 41% dos cidadãos consideram crime e violência as principais questões do país.
Nos últimos meses de 2025, as discussões sobre segurança foram intensificadas pela megaoperação policial contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortos, incluindo quatro policiais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enviou ao Congresso Nacional duas propostas legislativas sobre o tema: a PEC da Segurança Pública, que amplia os poderes do governo federal na definição de diretrizes nacionais, e um projeto de lei que endurece punições para integrantes de facções criminosas.
Modelo policial precisa mudar, defende HRW
Além das críticas à infiltração do crime organizado, o relatório da Human Rights Watch aponta que as polícias brasileiras frequentemente atuam com estratégias que aumentam a violência em vez de contê-la. Dados atualizados do Ministério da Justiça indicam que policiais foram responsáveis por 6.519 mortes em 2025, representando um aumento de 4,5% em relação ao ano anterior.
"Por muito tempo, adotou-se um modelo de combate ao crime baseado em operações de caráter militar na qual policiais entram em comunidades de baixa renda atirando. Já sabemos que esse modelo não resolve o problema da violência e do crime organizado. Ele cria insegurança e coloca em risco a população e os próprios policiais", analisa César Muñoz.
Outros destaques do relatório sobre o Brasil
O capítulo dedicado ao Brasil no relatório mundial da Human Rights Watch de 2026 cita diversos acontecimentos relevantes ocorridos ao longo do ano passado, incluindo:
- Queda nas taxas de homicídios, mas aumento significativo nas mortes provocadas por policiais;
- Pessoas negras têm três vezes e meia mais chances de serem vítimas de violência do que pessoas brancas;
- Condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por conspiração para permanecer no cargo após perder as eleições de 2022;
- Fraude no INSS envolvendo cobranças não autorizadas que ultrapassam R$ 6 bilhões;
- Medidas do governo Lula para proteger o meio ambiente, mas manutenção de planos de expansão massiva da produção de combustíveis fósseis;
- Investigações sobre emendas parlamentares do Congresso Nacional por falta de transparência;
- Decisão do Supremo Tribunal Federal de que a lei brasileira de combate à violência doméstica se aplica a casais do mesmo sexo e a mulheres trans;
- Criação de legislação para proteger os direitos de crianças em ambientes digitais.
Ameaça autoritária global
O relatório da Human Rights Watch também aborda preocupações internacionais, classificando o novo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos como um "avanço autoritário" global que coloca os direitos humanos em risco significativo. A análise destaca ainda líderes como Vladimir Putin da Rússia e Xi Jinping da China como ameaças à ordem mundial, apontando que 72% da população global vive atualmente sob regimes autoritários.
A organização defende uma aliança global para conter este avanço autoritário, destacando a "pressão implacável" exercida por China e Rússia contra os direitos humanos em todo o planeta. O documento classifica quase duzentos países em seis categorias distintas, desde autocracias fechadas até democracias liberais, oferecendo um panorama abrangente do estado da governança global.