Caso Master: Lula e Flávio Bolsonaro iniciam embate político antecipado
Caso Master: Lula e Flávio Bolsonaro iniciam embate

A operação da Polícia Federal que mirou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e a derrota no Senado da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) anteciparam o embate político em torno do caso Master entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Estratégias de campanha em jogo

Lula se prepara para explorar os desdobramentos dos casos durante a campanha em agosto, mas evita contaminar sua relação com o Congresso Nacional neste momento. A ação contra Ciro Nogueira e o veto a Messias, no entanto, levaram seus aliados a colocar em prática a estratégia de ligar o escândalo do Master à direita. Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro (PL), era cotado para ser vice de Flávio. A suspeita é de que ele tenha recebido dinheiro do Master para defender o banco no Congresso, o que ele nega.

Desde a operação da PF na quinta-feira (7), a esquerda explorou o caso nas redes sociais, gerando desgaste ao adversário, como admitem seus próprios aliados. O núcleo duro da campanha de Flávio Bolsonaro percebeu que esse discurso repercutiu e levou a uma reação do senador para, além de passar a imagem de ser favorável às investigações, tentar atrelar suspeitas de desvios ao PT.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Cautela de ambos os lados

Ambos os lados tratam o tema com cautela. Flávio não quer prescindir de uma eventual aliança com Ciro Nogueira, que pode ser relevante em termos de tempo de televisão e dinheiro para sua campanha. Antes mesmo da operação, o parlamentar do Piauí já tinha caído nas apostas para a vice. Lula, por sua vez, tenta se equilibrar entre a governabilidade e a disputa eleitoral ao lidar com o impacto do escândalo do Master sobre o Congresso e o STF.

Logo após a operação da PF, o presidente orientou aliados a não tripudiarem. A ideia é refutar acusações de instrumentalização da corporação contra adversários, principalmente após o Senado rejeitar a indicação de Messias. Um dos argumentos para sustentar essa estratégia é que o relator do caso no STF, ministro André Mendonça, foi indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, pai de Flávio.

Reconstrução de pontes políticas

A tática é adotada num momento em que Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tentam restabelecer pontes. Alcolumbre é próximo a Ciro Nogueira e padrinho político do presidente da Amprev (Amapá Previdência), gestora do regime próprio de previdência do estado, que aportou recursos da instituição no Master. Como mostrou a Folha de S. Paulo, Alcolumbre sinalizou que deseja um encontro com Lula.

Mesmo entre aliados de Lula que recomendam cautela, há o consenso de que o caso Master será um dos temas da eleição. A aposta é que o petista precisará fazer "do limão uma limonada" e transformar a derrota de Messias numa pauta eleitoral positiva. A ideia é adotar um discurso antissistema na campanha, denunciando a rejeição a um evangélico e a existência de um consórcio entre o centrão e a direita para dificultar o avanço das investigações sobre o banco.

Ofensiva da esquerda e reação da direita

O embasamento para essa ofensiva é denunciar que a desaprovação de Messias e a derrubada do veto da dosimetria fazem parte de um acordo do centrão com a direita e uma ala do STF para frear as investigações. A oposição passou meses pedindo a CPI para investigar o escândalo, mas isso gerou um impasse para a derrubada do veto da dosimetria, que reduz as penas dos condenados por golpismo. Esse tipo de comissão tem instalação obrigatória na primeira sessão do Congresso após a reunião das assinaturas necessárias.

Dessa forma, Alcolumbre indicou que não convocaria a reunião do Congresso para derrubar o veto até a oposição garantir que não usaria a sessão para pressionar pela instalação da CPI. De fato, o PL de Flávio Bolsonaro não pressionou pela abertura do colegiado durante a votação da dosimetria, no último dia 30.

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), afirmou à reportagem que o partido vai expor o que seria um consórcio entre centrão e a direita para enterrar a comissão. "De um lado derrubou a dosimetria e do outro protegeu o ministro Alexandre de Moraes e os congressistas envolvidos com o Master, derrubando a CPI. Ficou claro esse acordo", disse.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Messias foi apoiado publicamente pelo ministro André Mendonça, que tentou virar votos na oposição para fazer do advogado-geral da União seu colega no STF. Petistas alardearão que Messias foi rejeitado porque, se aprovado, integraria a ala da corte que defenderia a investigação do Master.

Ataques antecipados nas redes

Apesar do pedido de Lula para não se vangloriar da operação contra Ciro Nogueira, uma ala da esquerda partiu para o ataque, antecipando o discurso da campanha contra Flávio. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), publicou uma montagem que mostra os senadores como uma dupla sertaneja chamada "Rachadinha & Mesadinha".

O pré-candidato do PL logo percebeu que a operação da PF contra Ciro Nogueira abriria um flanco de desgaste, uma vez que o senador era cotado para ser seu vice. Flávio publicou dois vídeos, feitos em estúdio, defendendo a investigação e atacando a base governista por não ter aderido ao pedido de CPI do Master articulado pela oposição. Ele não fez referência a Ciro Nogueira, mas apontou suspeitas sobre o envolvimento do PT da Bahia com o escândalo.

Interlocutores admitem o receio de Flávio Bolsonaro porque Ciro Nogueira é uma pessoa próxima. Por isso não irão atacá-lo, mas deixam claro que possuem munição para contra-atacar o governo, apontando que o senador do Piauí, apesar de ter sido chefe da Casa Civil de Bolsonaro, antes foi aliado de Lula e da ex-presidente Dilma Rousseff.

Nesta sexta-feira (8), em entrevista em Florianópolis (SC), Flávio tentou se distanciar do senador do PP e disse que as acusações são graves. "Vocês querem me vincular com o Ciro Nogueira, mas o Banco Master é do Lula", disse. Ele afirmou ainda: "Não é que as pessoas têm proximidade comigo que eu vou ter que responder pelos atos dela".