Aliança história se desfaz: Alckmin enfrenta ostracismo no governo Lula
Em julho de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva anunciava sua parceria com Geraldo Alckmin como um marco histórico na política brasileira. "Estamos fazendo a mais importante aliança já feita entre todas as alianças de esquerda deste país e os partidos democráticos", declarava o petista com entusiasmo, garantindo que seu novo parceiro de chapa "não seria vice decorativo" e teria papel vital no governo.
Do avalista eleitoral ao vice substituível
Naquele momento, Lula emergia de um período conturbado que incluía prisão e limpeza de sua ficha penal, necessitando urgentemente de um avalista que conferisse credibilidade além dos círculos da esquerda. Alckmin, ex-governador tucano com reconhecida trajetória política e aceitação entre eleitores moderados, parecia a escolha perfeita para compor o "produto" eleitoral do petismo.
As promessas eram grandiosas: um governo de frente democrática, distante do aparelhamento partidário, onde todas as vozes seriam ouvidas. A realidade, contudo, mostrou-se bem diferente.
A decepção pós-eleição
Ao assumir o Palácio do Planalto, Lula rapidamente distribuiu os ministérios mais estratégicos e o controle da economia a aliados do Partido dos Trabalhadores. Para Alckmin, reservou a pasta do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços - uma função considerada secundária pelo núcleo petista, focada na interlocução com empresários e no setor produtivo.
O vice-presidente, resgatado do ostracismo político pelo próprio Lula, atuou como soldado leal do governo. Teve momentos de protagonismo, especialmente nas relações com o mercado, mas permaneceu sistematicamente afastado do centro decisório comandado por Rui Costa na Casa Civil.
Promessas ao vento e silêncio estratégico
Durante a campanha, Lula havia sido categórico ao afirmar que não disputaria a reeleição. Mais uma promessa que se juntou ao extenso rol de compromissos não cumpridos do atual mandato. Agora, o presidente prepara-se para buscar seu quarto mandato, mas avalia não necessitar mais de Alckmin ou da retórica da "frente democrática" para legitimar sua candidatura.
O discurso sobre a aliança histórica transformou-se em movimentos de bastidores para convencer outros partidos - como PSD e MDB - a apoiarem o petismo nas próximas eleições. Enquanto isso, Alckmin ocupa a constrangedora posição de figura substituível dentro do próprio governo que ajudou a construir.
O fogo amigo e o silêncio presidencial
Se Lula demonstrasse gratidão e satisfação com seu vice, já teria feito uma declaração pública definitiva para conter as investidas de setores petistas que buscam abandonar Alckmin na próxima disputa eleitoral. Em vez disso, o presidente mantém um silêncio eloquente, assistindo passivamente enquanto seu parceiro de chapa enfrenta temperaturas elevadas no cenário político.
A relação que começou com discursos grandiloquentes sobre união histórica transformou-se em um exemplo emblemático das alianças políticas brasileiras: úteis no momento eleitoral, descartáveis quando cumprida sua função. Alckmin, que um dia foi apresentado como peça fundamental do projeto lulista, hoje observa seu espaço diminuir diante dos cálculos eleitorais do presidente e de seu partido.



