Resiliência de Lula é testada na sétima eleição presidencial contra o bolsonarismo
Mauro Paulino analisa a trajetória política de Luiz Inácio Lula da Silva, líder moldado no século XX que enfrenta o desafio de reconquistar a juventude do século XXI em sua sétima eleição presidencial como candidato. A disputa promete ser acirrada contra Flávio Bolsonaro, herdeiro instantâneo dos votos de Jair Bolsonaro, que elevou a extrema direita brasileira ao protagonismo político e eleitoral.
Da derrota em 1982 ao desafio atual
Há cinco décadas, Lula atravessa gerações de eleitores. Em 1982, disputou a eleição pioneira para o governo de São Paulo sob o lema "trabalhador vota em trabalhador". As pesquisas de então eram ferramentas incipientes, o PT as desacreditava e confiava realmente no lema da campanha e na vitória. A derrota foi esmagadora, os trabalhadores preferiram votar em massa na segurança oferecida pelo senador Franco Montoro (PMDB), enquanto Lula amargou um quarto lugar com votos de uma "bolha" de jovens estudantes e intelectuais da classe média ilustrada.
Foi um choque de realidade que iniciou o líder metalúrgico do ABC paulista nas artimanhas da persuasão eleitoral, bem diferentes das que tão bem articulava nas portas de fábricas e nas ríspidas negociações junto aos patrões. Hoje, jovens pressionados por um mercado de trabalho precarizado e em transformação já não enxergam nele o líder instigante de então, mas o representante de um sistema corrompido que tanto atrapalha o início da carreira profissional.
O eleitorado jovem e as novas aspirações
A postura radicalizada da direita bolsonarista, com seus arroubos antissistema e acenos ao empreendedorismo individual, surge mais atrativa para a maioria dos que sonham crescer num mercado de trabalho feroz que dilui a importância da carteira assinada, vista como uma relíquia de um passado burocrático. Se muitos dos que, nos anos pós-ditadura, não conseguiam chegar às universidades sonhavam em ser jogadores de futebol como saída mágica de ascensão social e econômica, o devaneio atual é crescer como influenciador digital nas onipresentes redes sociais.
Conforme um levantamento feito em 2022 pela Inflr, startup especializada em marketing de influência, 75% dos jovens do país sonham em ser influencers. É provável que muitos deles tenham buscado o acesso à educação superior por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferece bolsas de estudo em universidades particulares para estudantes de baixa renda. Eles tendem a valorizar menos as garantias da CLT, a não valorizar o sindicalismo e a desprezar direitos trabalhistas.
O sonho do "doutor" ou do metalúrgico com estabilidade foi substituído pelo sonho do "gestor de si mesmo". O avesso das lutas históricas de Lula. O envelhecimento do eleitorado lulista é palpável. Metade dos jovens entre 16 e 24 anos desaprovam o governo Lula, contra 43% que o aprovam. Entre os mais velhos, acima de 60 anos, ocorre o inverso: 50% aprovam e 45% desaprovam. São dados da Quaest de fevereiro, a mais recente do instituto.
Trajetória de superação e desafios atuais
Se nos anos 80 Lula era o "novo" que seduzia a juventude universitária enquanto o operariado tateava o sindicalismo, hoje ele é o rosto de um sistema que essa juventude deseja implodir. O jovem periférico que rala entregando comida por aplicativo ou gerencia uma microempresa de revenda on-line não enxerga nas premissas do PT a esperança necessária para empreender.
Além da eleição de 1982, Lula precisou perder outras três disputas presidenciais para, vinte anos depois, convencer a maioria do eleitorado brasileiro de suas intenções, incluídos os mais jovens. Com foco na conquista da confiança dos mais pobres, valorizando benefícios sociais e o combate à fome, atingiu seu ápice no final do segundo mandato, em 2010, chegando a 83% de aprovação (ótimo/bom, segundo o Datafolha) e elegendo sua ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT), como sucessora.
Ele superou as dificuldades após estourar o escândalo do mensalão. Os brasileiros queriam a continuidade de Lula e, não sendo possível, esse desejo elegeu a indicada. Foi uma transferência de votos demorada e uma candidatura que só se tornou viável após muitas viagens de campanha pelo Brasil. Depois, veio o câncer, o impeachment, os 580 dias de prisão, a derrota de Fernando Haddad para Bolsonaro, até o renascimento eleitoral, em 2022.
Mais uma vez, o desafio de barrar o bolsonarismo
Diante desse histórico de vitórias e sucessivas derrotas, Lula disputa agora sua sétima eleição presidencial como candidato — e a décima se incluídas as de que participou como cabo eleitoral. Era o favorito até a ascensão de Flávio Bolsonaro (PL) como herdeiro instantâneo dos votos de Jair Bolsonaro, líder histórico que elevou a extrema direita brasileira ao protagonismo político e eleitoral.
Em seu último ato como candidato, Lula tem o desafio de, mais uma vez, barrar o bolsonarismo e encerrar sua trajetória pessoal assumindo a Presidência pela quarta vez. Mas quais são as chances reais de que isso se concretize? Há quem garanta que será a eleição mais fácil, com chances de vitória já no primeiro turno. Esse palpite é embasado em argumentos fortes como o contraste entre o carisma de Lula, especialmente entre os mais pobres, e a falta de empatia de Flávio Bolsonaro junto a esse segmento majoritário da população e que decide eleições.
Análise das chances eleitorais
Durante a campanha, Lula poderá exibir números muito positivos sobre queda do desemprego, controle da inflação, aumento do poder de compra, quebrando a resistência da percepção dessas melhoras na vida real. A comunicação daria conta desse problema. Outro argumento é que se o próprio Jair Bolsonaro, usando a máquina do governo, não conseguiu êxito contra Lula, o filho evidentemente teria ainda menos chances.
Pelos resultados de hoje das pesquisas não é possível embasar essas afirmações. Se a eleição fosse hoje, haveria segundo turno, com a disputa final muito acirrada entre Lula e Flávio Bolsonaro. A resiliência de Lula não elimina os limites estruturais. A autoridade simbólica que Lula exercia por meio da TV aberta hoje disputa espaço com influenciadores, pastores midiáticos e parlamentares hiperconectados, terreno onde o PT escorrega.
Jovens batalhadores são também influenciadores e propagam suas convicções. Talvez seja o segmento mais estratégico a ser persuadido. Lula é um líder moldado no século XX que precisa convencer eleitores formados no século XXI. Só assim poderá exercer novamente sua maior especialidade: fazer história.



