Legado de Cláudio Castro no RJ: Um atalho para o passado político do estado
Legado de Cláudio Castro: atalho para o passado do RJ

Legado de Cláudio Castro: Um atalho para o passado político do Rio de Janeiro

A renúncia do governador Cláudio Castro nesta segunda-feira (23) representa mais do que uma manobra jurídica para tentar escapar de uma condenação por inelegibilidade. Seu legado político pode ser definido como um verdadeiro atalho para o passado do Rio de Janeiro, estabelecendo paralelos históricos surpreendentes com figuras como Chagas Freitas.

Paralelos históricos: de Chagas Freitas a Cláudio Castro

Desde a redemocratização brasileira, passando por governadores como Brizola e Wilson Witzel, nunca houve um político tão semelhante a Chagas Freitas quanto Cláudio Castro. Ambos compartilham a característica de não serem figuras carismáticas, mesmo com Castro sendo cantor gospel. Nem um, nem outro conseguiram despertar paixões no eleitorado fluminense, mas isso não impediu que ambos alcançassem importantes vitórias eleitorais em suas respectivas épocas.

Chagas Freitas governou durante o período da ditadura militar, primeiro na antiga Guanabara (1971-1975) e depois no Estado do Rio de Janeiro (1979-1983). Sem grande apelo popular, tanto ele quanto Castro demonstraram habilidade em utilizar a máquina do Estado para vencer eleições e construir maiorias na Assembleia Legislativa.

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Métodos de governo: fisiologismo e empreguismo

Uma vez no poder, ambos os governadores adotaram estratégias semelhantes: partilharam o poder com a Assembleia Legislativa, lotearam cargos públicos, utilizaram o empreguismo como ferramenta política e praticaram o fisiologismo como método de governo. A diferença fundamental reside no contexto histórico: enquanto Chagas atuava sob uma ditadura sem oposição livre e com uma Justiça Eleitoral pouco efetiva, Castro governou em um cenário democrático.

Essa diferença de contexto explica por que Castro agora enfrenta processos por cassação e inelegibilidade, acusado de utilizar a máquina pública para criar um exército de "mercenários do voto" - cabos eleitorais pagos com recursos públicos.

Liderança regional versus projeção nacional

Tanto Chagas quanto Castro se consolidaram como líderes regionais cuja influência raramente ultrapassava as fronteiras do estado do Rio de Janeiro. A famosa frase de Chagas - "Eu não sei o que é montanha. Eu sei o que é morro" - exemplifica seu desprezo pela política nacional, uma postura que surpreendia a população fluminense acostumada com líderes como Brizola e Lacerda, que focavam em temas nacionais.

Castro também se viu entre dois líderes carismáticos de projeção nacional: Lula e Bolsonaro. Seu governo só ganhou destaque nacional após a operação policial no Alemão que resultou em mais de 60 mortos, um dos morros que Chagas dizia conhecer tão bem.

A política da água: de Chagas a Castro

As favelas do Rio sempre foram importantes currais eleitorais, e ambos os governadores souberam explorar essa realidade. Durante o chaguismo, as bicas d'água se tornaram instrumentos políticos cruciais. Sem rede regular de abastecimento, os moradores dependiam dessas fontes públicas, que apesar de instaladas pelo governo, eram controladas por políticos aliados do governador.

Castro desenvolveu sua própria versão da "política da água", porém através de mecanismos diferentes. Seu grande feito governamental foi a privatização da Cedae, empresa de saneamento e águas do estado. Segundo denúncias do Ministério Público, aproximadamente 1 bilhão de reais provenientes dessa venda teriam sido utilizados para financiar campanhas eleitorais visando 2026.

O caminho não percorrido

Apesar de sua inegável habilidade política - outro ponto em comum com Chagas Freitas - Cláudio Castro teve a oportunidade de pavimentar um caminho para o futuro do Rio de Janeiro. Em vez disso, optou por seguir um atalho que o levou de volta às práticas políticas do passado, culminando em sua renúncia e no consequente processo de transição de poder que agora coloca o presidente do Tribunal de Justiça do Rio à frente do governo por 48 horas até a convocação de eleição indireta.

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O legado de Castro permanecerá como um exemplo de como práticas políticas antigas podem ressurgir em novos contextos, demonstrando que algumas dinâmicas do poder no Rio de Janeiro transcendem décadas e regimes políticos diferentes.