Analistas políticos e do mercado financeiro passaram uma semana inteira profetizando o derretimento de Flávio Bolsonaro após a divulgação do áudio com Vorcaro. A expectativa era de que ele minguasse nas pesquisas e abrisse espaço para a tão falada terceira via. No entanto, o Datafolha veio e mostrou que o derretimento não aconteceu. Em vez de reverem suas análises, muitos analistas reembalaram o mesmo discurso, dizendo que a pesquisa foi péssima para Flávio. Mas, ao olhar os números, é possível enxergar uma realidade bem diferente.
A visão do Seu Jorge
Antes de analisar os números de Brasília, é preciso entender a realidade do eleitor comum. Conheça Seu Jorge, não o cantor, mas o padeiro de Curiacica. Ele não abriu a cotação do dólar esta semana. Seu drama é outro: Neymar foi convocado para a Copa, a seleção embarca em junho e a figurinha do camisa 10 ainda não colou no álbum do filho. É isso que tira o sono dele agora. Daqui até outubro, Seu Jorge vai completar o álbum, torcer, xingar o juiz pela televisão, chorar ou comemorar numa final. Só depois de tudo isso é que ele vai sentar para pensar em quem merece seu voto. Tem uma Copa do Mundo inteira entre a indignação do analista e a urna do Seu Jorge.
A falha estrutural do mercado
Essa é a falha estrutural do tal “mercado” quando tenta ler o Brasil real: ele imagina que o eleitor lê balanço de banco. No dia 13, quando o áudio de Flávio com Vorcaro vazou, o dólar disparou 2,3% e fechou acima de R$ 5, o maior patamar em mais de um mês. Em planilha, a candidatura virou ativo tóxico na mesma tarde. Vendeu-se tudo: candidatura encerrada, agora ou é Michele, Zema ou Caiado. Aí veio a urna popular, nove dias depois, e disse outra coisa.
O que o Datafolha realmente mostrou
Flávio caiu de 35% para 31% no primeiro turno. Quatro pontos, numa pesquisa com dois pontos de margem para cada lado. Para traduzir o tamanho dessa “queda”, imagine que avisaram ao Seu Jorge que o time dele ia ser rebaixado, perder o estádio, o patrocínio e até o escudo. No fim, o time só viu seu craque levar um amarelo no segundo turno. É mais ou menos isso. O mercado anunciou rebaixamento; o que veio foi cartão amarelo. Para quem esperava o apocalipse, quatro pontinhos viram troco para o candidato e desculpa envergonhada de analistas.
O crescimento desde dezembro
E tem o número que ninguém botou na mesa: quando Jair Bolsonaro lançou o nome do filho, em dezembro, Flávio tinha 18% no Datafolha. Hoje, depois da maior porrada da pré-campanha, está com 31%. Ou seja: o “fundo do poço” dele em maio é treze pontos mais alto do que o ponto de partida em dezembro. Velório nenhum tem defunto que engorda treze pontos a caminho do caixão.
Por que ele não cai mais?
Porque o eleitor de Flávio acha feio, mas vota assim mesmo. O próprio Datafolha mostra: 64% souberam do caso e 64% acharam que ele “agiu mal”. E, ainda assim, a candidatura mal se mexeu. Reprovar a conduta é uma coisa; trocar o voto é outra, bem diferente. Voto de base não é transação de mercado, é pertencimento. E pertencimento não desaba por causa de reportagem.
O recado para a terceira via
Agora, o recado mais duro vai para quem anda namorando a candidatura do meio: a terceira via não existe. Não é opinião, é aritmética. Estenderam o tapete vermelho para ela — favorito da direita encrencado, céu aberto, convite na mão — e os nomes que alguns chamam de “alternativa civilizada” seguem patinando na casa dos 3%, 4%, 5%. Não é falta de oportunidade. É falta de eleitor. A briga acirrada não é um acidente que um nome simpático de centro conserta no susto; é a própria estrutura do jogo.
Conclusão
No fim, o Datafolha foi bom para Flávio. Num levantamento só, ele derrubou dois mitos: o de que Michelle puxa mais voto que ele (ela tem 22%, ele tem 31%) e o de que existe terceira via. O mercado matou Flávio numa quarta-feira de pânico. O Brasil real ressuscitou ele no sábado. A diferença entre os dois é simples: um lê a planilha, o outro completa o álbum da Copa. E, em outubro, quem vota é quem ainda tem figurinha faltando.



