As campanhas eleitorais costumam amontoar assuntos, muitas vezes confundindo a opinião pública; quando não são ainda mais nefastas, comprometendo o bom desempenho das urnas. A campanha para outubro revela seus primeiros sinais, ganha espaço e já sugere alguns reparos, não apenas pela ausência de temas prioritários, mas também por abrigar questões inoportunas para o momento.
Falta de um projeto nacional
Falta-nos hoje, antes de tudo, quando partimos para eleições majoritária e proporcional, a conversa sadia sobre um projeto nacional. O Brasil ainda não delineou seu plano geral de voo, vive sem um norte, sujeito a improvisações, que vão se alternando nos governos que se sucedem. Chega um presidente ou governador, não se sente no dever de acolher e aperfeiçoar o que lhe foi transferido; na verdade, o que ocorre sempre é o esforço para engavetar o que o antecedeu. E, se preserva planos e projetos que herdou, em geral opta pelo pior. Exemplos são vários. Caminha nossa república sem trajeto verdadeiramente definido. Nossa principal carência. Não é de hoje.
Temas inoportunos na campanha
Contudo, a campanha, na contramão do desejável, revela-se tolerante com temas que, mesmo importantes, são impróprios para o momento eleitoral, porque estão condenados a ceder à influência das disputas, sujeitos apenas à caça aos votos; a nada mais aspiram além de enganar e fazer agrados à população votante. Ficam prejudicadas questões que recomendam reflexões mais demoradas, acima de influências políticas momentâneas. Um exemplo figura nas páginas de hoje: ao sabor do calor das divergências, o desejo de dar fim à escala de trabalho 6x1, que, independentemente de méritos, merece demorados estudos, longe da intenção do Congresso e do Executivo de transformá-la em cabo eleitoral.
Outra questão importantíssima, tão necessária, mas fadada a descambar para o campo dos interesses eleitoreiros, é a reforma do Judiciário. Já se vê estar a serviço de governistas e antigovernistas, vai aos palanques para julgar ministros comprometidos, colocar o Supremo na berlinda e tornar temporários e vulneráveis os ombros que as togas enfeitam. Mudança pesada demais para ser debatida em plena corrida eleitoral; e, por isso mesmo, destinada a condenar a sociedade a julgamentos precipitados ou preconceituosos.
Fragmentação partidária
Empobrecida também fica a campanha sob a progressiva fragmentação dos partidos, defeito que se acentuou com a recente “janela”, aberta no último dia 3, e por onde, saltitantes, deputados e vereadores sem compromisso com suas legendas saíram para pousar em outros ninhos, preocupados em ocupar espaços mais favoráveis à reeleição. Com escassez de fidelidade, a organização partidária adormece em definitivo no Brasil, substituída por federações, estas igualmente ajustadas ao oportunismo da hora.
Segurança pública e outros temas
Note-se, por acréscimo, que, apontados como tema mais sensível para testar conhecimento e compromisso dos candidatos, até os planos para a segurança pública sujeitam-se à interferência de grupos pouco interessados em soluções, mas no imediatismo político. A campanha eleitoral de 2026, portanto, já mostra seus problemas e a necessidade de um debate mais sério e focado no futuro do país.



