Caiado enterra definitivamente a fantasia da terceira via e mira firme no eleitorado da direita
No campo da esquerda, pela primeira vez desde a redemocratização, Lula se consolida como o único nome na disputa presidencial. Enquanto isso, a direita brasileira se apresenta fragmentada em múltiplas pré-candidaturas que disputam espaço em um cenário polarizado.
O retorno de Caiado ao cenário nacional
Na tarde da segunda-feira 30, o então governador de Goiás, Ronaldo Caiado, chegou à sede do PSD em São Paulo acompanhado da família, do presidente do partido Gilberto Kassab e de alguns poucos filiados para anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República em 2026. Esta é a segunda vez que o fazendeiro e médico de formação almeja ocupar o Palácio do Planalto.
A primeira tentativa ocorreu em 1989, na primeira disputa presidencial após o fim da ditadura, quando se apresentava como candidato da direita ruralista e obteve apenas 1% dos votos. Seu desempenho era tão modesto que, durante um debate televisivo, o também candidato Lula se recusou a direcionar uma pergunta para Caiado, afirmando que só o faria quando ele superasse 1,5% nas intenções de voto.
Desafios em um campo saturado
Nesse aspecto, o desafio político do goiano nascido em Anápolis não mudou radicalmente: atualmente, ele possui cerca de 4% dos votos nas pesquisas. Para dificultar ainda mais sua missão, terá de disputar os mesmos votos que outros quatro potenciais candidatos de direita. Um deles, Flávio Bolsonaro (PL), graças ao apoio do pai e ex-presidente Jair Bolsonaro, está muito à frente dos demais nas pesquisas.
A escolha de Caiado para representar o PSD nas urnas vem depois de várias semanas nas quais Kassab difundiu a promessa de que ofereceria uma alternativa à polarização entre lulismo e bolsonarismo nas eleições deste ano. Após sua primeira opção, o governador Ratinho Junior do Paraná desistir da disputa, Kassab decidiu-se por Caiado devido ao seu desempenho nas pesquisas, levemente superior ao do governador Eduardo Leite do Rio Grande do Sul.
Discurso alinhado ao bolsonarismo
Com essa decisão, o PSD deixa de se posicionar como uma força de centro-direita na corrida ao Palácio do Planalto e passa a competir por espaço em um terreno eleitoral onde o bolsonarismo tem domínio quase absoluto. O discurso de Caiado, aliás, é muito similar ao de Flávio Bolsonaro em todos os temas, da segurança pública à pauta de costumes, do antipetismo à acusação de que o Brasil não vive um Estado democrático pleno.
A proximidade de Caiado com o bolsonarismo não é recente. Ele esteve no palanque do ex-presidente em várias manifestações nos últimos anos e, no anúncio de sua candidatura, declarou que pretende conceder indulto para tirar da cadeia Bolsonaro e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.
Fragmentação da direita brasileira
A direita fracionada que irá às urnas tem, além de Caiado e Flávio Bolsonaro, o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), o empresário Renan Santos (Missão) - um dos líderes do Movimento Brasil Livre (MBL) - e o ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (DC). Caiado, Zema, Renan e Aldo somam apenas 10% das intenções de voto no primeiro turno.
Essa proliferação de pré-candidaturas de direita, capazes de roubar alguns pontos percentuais de Flávio no primeiro turno, ocorre porque o senador não tem a mesma força de aglutinação política do pai. Além disso, alguns dos nomes do segundo pelotão da direita na disputa utilizam as candidaturas para ganhar musculatura política para o médio e longo prazo.
"Isso permite que eles negociem apoio a Flávio no segundo turno ou se posicionem para 2030, quando Lula estará fora", analisa Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.
Primária informal da direita
O primeiro turno da eleição presidencial tende a funcionar, assim, como uma grande primária informal da direita brasileira, como já ocorreu em cidades como São Paulo, Curitiba e Goiânia nas últimas eleições municipais. Há riscos e vantagens diante desse quadro fragmentado.
Se essas candidaturas da direita competirem entre si de forma predatória, atacando umas às outras, enfraquecerão esse campo político como um todo e entregarão vantagem a Lula. Se houver coordenação, união de estratégias e foco no adversário principal, a diversidade ampliará o alcance da direita no eleitorado.
"O cenário se aproxima muito do que vimos nas eleições do ano passado no Chile, onde diferentes correntes da direita disputaram o primeiro turno e, no segundo, houve recomposição em torno do candidato mais competitivo contra o campo progressista", observa Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB).
Competição pelo antipetismo
Os eleitores podem ter certeza de uma coisa: haverá, entre esses candidatos, uma competição para ver quem consegue se apresentar como o mais antipetista. Caiado bateu bastante nessa tecla no lançamento de sua pré-candidatura: "Nós ganhamos do PT em 2018, depois ele voltou (à Presidência). Podemos voltar a ganhar. Não é difícil ganhar do PT. No segundo turno, ele estará batido."
Romeu Zema, que pontua próximo ao goiano nas pesquisas, é outro que sempre inclui ataques ao partido de Lula em seus discursos, geralmente com ênfase em aspectos econômicos para se vender como uma alternativa à direita mais próxima do empresariado e do pensamento liberal.
Monopólio de Lula na esquerda
No campo da esquerda, pela primeira vez desde a redemocratização, Lula se consolida como o único nome na disputa presidencial. Em outros pleitos, houve uma pluralidade de nomes de esquerda ou de centro-esquerda, como Ciro Gomes, Marina Silva, Eduardo Campos, Eduardo Jorge, Heloísa Helena, Cristovam Buarque e, em 1989, Leonel Brizola.
Esse monopólio de Lula no campo da esquerda na disputa deste ano é fruto de dois fatores. O primeiro é a formação de alianças nesse campo, cujo objetivo era garantir uma base de apoio mais robusta para o governo, mas que tem como efeito um desincentivo ao lançamento de candidaturas alternativas. O segundo é a própria postura do presidente.
"Lula não faz nenhuma questão de que cresçam outras lideranças enquanto ele estiver na cena política, e outros partidos do campo da esquerda não se dispõem a enfrentá-lo", explica Eduardo Grin.
Conclusão: cenário polarizado
Como resultado, se o cenário atual se mantiver, Lula não correrá o risco de ter que dividir votos, mas precisará enfrentar vários adversários à direita dispostos a conquistar o eleitorado com um forte discurso antipetista. A eleição de 2026 se configura assim como um pleito marcado pela polarização extrema, com uma direita fragmentada em múltiplas candidaturas e uma esquerda unificada em torno de um único nome histórico.



