Peru define rival de Keiko Fujimori no segundo turno após apuração conturbada
Peru define rival de Keiko no segundo turno

Após mais de um mês de apuração marcada por atrasos e denúncias de irregularidades, o Peru definiu nesta sexta-feira, 15, os candidatos que disputarão o segundo turno presidencial, marcado para 7 de junho. A direitista Keiko Fujimori, ex-congressista e filha do falecido ditador peruano Alberto Fujimori, ficou na liderança com 17,18% dos votos e enfrentará o esquerdista Roberto Sánchez, que obteve 12,03%.

Enquanto Fujimori ocupou o primeiro lugar durante todo o período da apuração, a disputa pelo segundo lugar foi acirrada. Sánchez, que foi ministro do ex-presidente Pedro Castillo — deposto e preso acusado de tentativa de golpe —, superou o ex-prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, por apenas 21.210 votos, o equivalente a 0,137% do total. Aliaga contestou o resultado e alegou fraude eleitoral sem apresentar provas. Em protesto realizado no centro histórico da capital peruana, ele pediu a anulação do pleito e afirmou que não reconhecerá um eventual “governo ilegítimo”.

Propostas dos candidatos

O candidato esquerdista defende uma “refundação” do país, com nova Constituição, maior autonomia regional e ampliação do controle estatal sobre recursos naturais. Já Keiko concorre à presidência pela quarta vez consecutiva e aposta em um discurso de segurança pública em meio ao aumento da violência no Peru. A direitista aposta em um discurso de segurança pública em meio ao aumento da violência no Peru. Entre suas propostas estão a construção de mais presídios, a retomada de tribunais com “juízes sem rosto” — mecanismo usado durante o governo de seu pai e duramente criticado por organizações de direitos humanos — e a saída do país da Corte Interamericana de Direitos Humanos, para endurecer os julgamentos de criminosos.

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Irregularidades eleitorais

As eleições foram marcadas por perturbações. Devido à negligência na montagem de mais de 200 seções eleitorais, ao menos 63 mil pessoas não puderam votar, obrigando a Junta Nacional Eleitoral a prorrogar o processo. Apesar disso, a Missão de Observação Eleitoral da União Europeia negou ter encontrado qualquer evidência da suposta fraude. Essa é a mesma posição compartilhada pelo Ministério Público e pela Ouvidoria. O vencedor do segundo turno tomará posse em julho.

Acusações contra Sánchez

A definição dos candidatos que disputarão o segundo turno ocorre apenas dois dias após o Ministério Público do Peru solicitar que Roberto Sánchez seja condenado a mais de cinco anos de prisão por omitir contribuições de campanhas entre 2018 e 2020 ao órgão eleitoral do país. O MP encontrou inconsistências nos relatórios financeiros do partido Juntos pelo Peru, de Sanchez, em campanhas para eleições regionais e municipais que ele participou. “A Roberto Sánchez é atribuída a autoria dos crimes de falsa declaração em procedimento administrativo e falsificação de informações sobre contribuições e receitas de organizações políticas”, afirmou a acusação. O esquerdista teria recebido mais de US$ 57 mil em contribuições do membros do Juntos pelo Peru para atividades partidárias. O valor, como apontou o Ministério Público, não foi declarado ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE). Em publicação nas redes sociais, Sánchez negou as alegações e declarou inocência.

Sánchez, por sua vez, negou todas as acusações. “Há anos tentam espalhar mentiras para me desacreditar politicamente. Os tribunais já rejeitaram as acusações referentes ao suposto uso pessoal de fundos partidários, porque nunca houve fraude ou desvio de verbas”, declarou. Em janeiro, a Justiça rejeitou parcialmente as acusações e determinou que os promotores reformulassem o processo. Uma audiência está marcada para 27 de maio, quando será definido se a ação seguirá para julgamento oral ou será arquivada.

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Instabilidade política no Peru

O Peru enfrenta, desde 2016, uma crise de instabilidade institucional marcada por investigações contra os chefes de Estado dos últimos anos. O país teve oito presidentes nos últimos dez anos. Em fevereiro, o Congresso do Peru destituiu o presidente interino José Jerí, alvo de duas investigações da Procuradoria-Geral por suposto “tráfico de influência”. Após a destituição, o esquerdista José María Balcázar foi eleito para o posto de chefe do Congresso do Peru e, em consequência, assumiu automaticamente a presidência do país de forma interina. Mais de 90% dos peruanos têm “pouca” ou “nenhuma confiança” em seu governo e em seu Parlamento, o índice mais elevado na América Latina, segundo a pesquisa regional Latinobarómetro.