O governo do presidente argentino Javier Milei proibiu a entrada de todos os jornalistas credenciados na Casa Rosada, sede da Presidência da Argentina, nesta quinta-feira, 23, sob alegação de uma investigação sobre suposta espionagem ilegal. A medida gerou forte reação de entidades de imprensa e partidos de oposição.
Decisão preventiva, diz governo
O secretário de Comunicação e Imprensa do país, Javier Lanari, anunciou a decisão por meio da rede social X, antigo Twitter. Segundo ele, a remoção das impressões digitais dos jornalistas credenciados foi uma medida preventiva após uma denúncia da Casa Militar sobre espionagem ilegal. O único objetivo, afirmou, é garantir a segurança nacional. A identificação por impressão digital é o método padrão para conceder acesso aos profissionais que cobrem as atividades do Executivo.
Lanari não forneceu mais detalhes sobre a investigação em andamento, e o governo não emitiu nenhum comunicado oficial até o momento. Em editorial, o jornal Clarín destacou que a decisão não tem precedentes na era democrática e nem mesmo durante a última ditadura militar argentina.
Denúncia contra jornalistas
A medida teria sido tomada após uma denúncia criminal contra dois jornalistas do canal Todo Noticias por suposta espionagem, envolvendo filmagens realizadas em áreas não autorizadas do palácio presidencial. Em virtude da existência de um processo judicial, conforme confirmado pelo Clarín, a produção do programa está disponibilizando ao tribunal, por meio de seus advogados, o material bruto de todas as gravações. A emissora afirma que as imagens foram feitas em locais comuns e espaços públicos, em conformidade com a legislação vigente.
Reação de Milei
Alheio à controvérsia, Milei comemorou o fechamento preventivo da sala de imprensa compartilhando um meme gerado por inteligência artificial. Em sua conta no Instagram, publicou um desenho de si mesmo como um fiscal à frente da Casa Rosada, com a frase: “Excelente medida: revogaram todas as credenciais de jornalistas da Casa Rosada por espionagem ilegal.”
Ao Clarín, o jornalista Alejandro Gomel, credenciado pela Rádio Splendid, relatou: “Cheguei aos portões da Casa Rosada e lá estavam membros da Casa Militar com uma pasta contendo uma lista de todos os jornalistas credenciados, com fotos e outras informações, para identificá-los e negar a entrada a qualquer um que tentasse entrar. Não consigo acreditar. Em 20 anos, nunca vi nada parecido.”
Relação tensa com a imprensa
A relação de Milei com a imprensa tem sido tensa desde que ele assumiu o cargo, em dezembro de 2023, marcada por frequentes ataques verbais e insultos contra jornalistas, a quem ele chamou de “lixos imundos”. Em seu recente relatório global, a Anistia Internacional alertou para “processos criminais e assédio judicial” contra jornalistas na Argentina.
Críticas do Fórum Argentino de Jornalismo
Em nota, o Fórum Argentino de Jornalismo manifestou sua rejeição à decisão do governo nacional de não permitir a entrada de jornalistas credenciados na Casa Rosada, medida que “afeta, de modo geral, todos os profissionais da imprensa que cobrem regularmente as atividades do Poder Executivo”. A organização enfatizou: “Essa decisão não afeta apenas a prática do jornalismo, mas também impacta diretamente o direito do público de acessar informações sobre as ações do governo. Na prática, limita a capacidade da sociedade de conhecer, compreender e monitorar as atividades de seus líderes.”



