Plano de guerra EUA-Israel previa colocar Ahmadinejad no poder no Irã
Guerra EUA-Israel: plano colocaria Ahmadinejad no poder

Uma reportagem do jornal americano The New York Times, publicada na terça-feira 19, revelou que um dos objetivos iniciais dos Estados Unidos com a guerra ao Irã era devolver ao comando do país o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad, político conhecido por posições radicais contra o Ocidente e Israel. De acordo com a investigação, o governo israelense elaborou um plano de mudança de regime discutido com Washington que previa levar Ahmadinejad de volta ao centro do poder — e chegou a incluir um ataque militar destinado a retirá-lo da prisão domiciliar em Teerã.

A estratégia fazia parte de uma operação mais ampla desenvolvida por Israel após o início da ofensiva militar lançada em 28 de fevereiro. O plano previa diferentes etapas que combinavam ataques militares, eliminação de lideranças iranianas, campanhas de influência política e ações voltadas a ampliar a instabilidade interna no país.

Dimensão ambiciosa da guerra

A revelação joga holofotes sobre uma dimensão mais ambiciosa da guerra do que a apresentada publicamente pela Casa Branca. Desde o início do conflito, o presidente Donald Trump e integrantes de seu governo sustentaram que o objetivo americano era enfraquecer as capacidades militares e nucleares do Irã, sem mencionar formalmente uma estratégia voltada à derrubada do regime. Dias depois dos primeiros bombardeios, porém, Trump chegou a afirmar publicamente que seria melhor se “alguém de dentro” assumisse o controle do país. Segundo o jornal americano, esse nome era Ahmadinejad.

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Quem é Ahmadinejad

Presidente iraniano entre 2005 e 2013, Ahmadinejad se tornou uma das figuras mais conhecidas da política iraniana no exterior por suas declarações agressivas contra Israel, defesa contundente do programa nuclear iraniano e ataques frequentes aos Estados Unidos. Durante sua passagem pelo poder, também ficou conhecido pela repressão implacável a opositores e por declarações controversas, como a negação do Holocausto.

Nos últimos anos, porém, Ahmadinejad acumulou atritos com o núcleo duro do regime iraniano. Criticou autoridades por corrupção e má gestão, viu aliados próximos serem presos e teve barradas tentativas de disputar novamente a Presidência em 2017, 2021 e 2024. Apesar das divergências, porém, nunca rompeu formalmente com a República Islâmica. A reportagem afirma ainda que o ex-presidente iraniano teria sido consultado sobre a articulação.

Ataque em Teerã

Segundo o NYT, Ahmadinejad vivia sob vigilância constante do regime iraniano em sua residência no bairro de Narmak, no leste de Teerã. No primeiro dia da guerra, um ataque israelense atingiu a região onde mora, deixando-o ferido, mas vivo. Nos primeiros momentos do conflito, chegaram a circular relatos na imprensa iraniana indicando que o ex-presidente não havia resistido. Dias depois, veículos estatais corrigiram a informação.

Segundo um aliado de Ahmadinejad citado pelo NYT, o ex-presidente interpretou o bombardeio como uma tentativa de libertá-lo. Depois de escapar por pouco do ataque, porém, teria perdido confiança no plano de mudança de regime. Desde então, seu paradeiro é desconhecido.

Mudança de planos

Segundo a investigação do jornal, Israel desenhou a guerra em diferentes fases. A primeira envolveria ataques conjuntos entre forças americanas e israelenses contra estruturas militares iranianas e integrantes do alto escalão político. Em seguida, campanhas de influência e pressões internas deveriam ampliar a instabilidade política e alimentar a percepção de perda de controle do regime. Uma terceira etapa previa que o desgaste institucional e os danos causados à infraestrutura estratégica do país abririam espaço para a instalação de um “governo alternativo”.

O plano, por óbvio, fracassou. Embora a campanha militar tenha provocado danos importantes e rombos nas redes de comando iranianas, a estrutura central do poder resistiu mais do que Israel e Estados Unidos previam. Mesmo após os primeiros sinais de que a estratégia fracassava, integrantes da inteligência israelense continuaram defendendo internamente que uma combinação entre pressão militar e fragmentação política ainda poderia abrir caminho para mudanças profundas no regime iraniano.

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Procurada pelo NYT, a porta-voz da Casa Branca, Anna Kelly, desconversou sobre a estratégia envolvendo Ahmadinejad, afirmando apenas que os objetivos americanos eram destruir capacidades militares iranianas e enfraquecer grupos aliados de Teerã (seu “eixo da resistência”).