Enchente histórica no RS completa 2 anos; gaúcha se refugia no Paraguai
Enchente no RS: gaúcha se refugia no Paraguai após 2 anos

A maior enchente da história do Rio Grande do Sul completa dois anos neste fim de semana. Para escolher a nova cidade, a gaúcha Renata de Brito, de 44 anos, estudou o comportamento das águas longe do Estado. Para onde o rio corre? Onde ele pode transbordar? Qual a chance de uma enchente? Eram perguntas que ela fazia ao decidir se mudar do Brasil após as devastadoras enchentes de 2024, que completam dois anos em abril.

"O que aconteceu me deixou com muito medo. Toda vez que chovia, eu já começava a ficar mal", lembra Renata, sorridente, enquanto vendia cachorro-quente em Ciudad del Este, no Paraguai, seu novo país. Por isso, ela se considera "uma refugiada climática". O termo, embora não oficialmente reconhecido pela Acnur, é usado para quem sai de sua região devido a riscos extremos das mudanças climáticas.

Vida construída do zero

Oceanógrafa e gastrônoma, Renata construiu a vida recebendo hóspedes em um sítio na zona rural de Maquiné, a 130 km de Porto Alegre. A propriedade às margens do rio Maquiné tinha chalés, galinhas, vaca e ovelhas. Perto dali, pequenas cascatas encantavam os hóspedes. "Era lindo. Eu construí do zero. Nunca imaginei ter que sair de lá", recorda.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

O primeiro baque foi nas enchentes de junho de 2023, quando um ciclone atingiu o RS, deixando 16 mortos. O então prefeito de Maquiné pediu desesperadamente que moradores saíssem de casa. Renata e o marido, Silas, deixaram o sítio e se hospedaram em casa de vizinha quando o rio transbordou, levando água até o joelho. Ao voltar, encontraram lama e estruturas destruídas. O casal pegou quatro empréstimos para reconstruir. A reabertura só foi possível após sete meses. "Imagina esse tempo sem renda, usando reserva de emergência", conta.

Segunda tragédia em 2024

Em abril de 2024, as chuvas intensas causaram a maior catástrofe climática do RS, com 2,3 milhões de afetados, 185 mortes e 23 desaparecidos. No pico, 581 mil gaúchos ficaram desabrigados. Cerca de 500 famílias ainda vivem em casas temporárias, segundo o governador Eduardo Leite.

Dessa vez, Renata e o marido estavam viajando. Quando tentaram voltar, as estradas estavam bloqueadas. Passaram uma semana em hotel em Osório. Os danos no sítio foram menores que em 2023, mas o cenário de desolação mexeu com o casal. Silas ajudou no resgate de barco; Renata organizava doações. A "incerteza climática" os levou a decidir deixar o RS.

Escolha pelo Paraguai

Inicialmente pensaram no Uruguai, mas os custos eram altos. Um amigo sugeriu o Paraguai, que recebe muitos imigrantes brasileiros. Venderam o sítio e se mudaram em junho de 2024 com quatro gatos e quatro cachorros. Escolheram Hernandarias, no departamento de Alto Paraná, a quase 1 mil km de Maquiné, vizinha à Hidrelétrica de Itaipu.

"Nós começamos a pesquisar um lugar que não tivesse cheias. Como a cidade fica acima da barragem, não tem perigo de inundação", explica Renata. Quando chove, há alagamentos por drenagem, mas os rios não transbordam, pois Itaipu abre comportas. "Mesmo sabendo que não há perigo, se chove forte, fico tensa", admite.

A escolha por país vizinho permite visitar o RS com facilidade. Também pesaram o crescimento econômico paraguaio e a pouca burocracia para empreender. Renata e o marido abriram uma lanchonete que vende "comida de boteco" e sobremesas na Avenida Gastronômica, às margens do lago de Itaipu. Ela também vende sanduíches em Ciudad del Este.

"Já montei minha vidinha aqui e está tão gostoso", celebra Renata, convicta de que seguirá no Paraguai indefinidamente. Para ela, sua mudança forçada pelo clima mostra como os danos da tragédia permanecem. "Tem muita gente que esquece a tragédia, mas ela fica na gente", conclui.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar