A tensão tomou vulto global nas horas que antecederam o prazo final do cessar-fogo entre Estados Unidos e Israel e Irã, na terça-feira 21. Era um momento-chave, já que a cambaleante trégua firmada em 8 de abril expiraria logo mais. E nada de os líderes envolvidos na contenda baixarem o tom. Ao contrário: a troca de estocadas verbais de lado a lado só escalava, tudo naturalmente reverberado pelas redes, sugerindo uma retomada ainda mais violenta do conflito que transbordou por todo o Oriente Médio e causou um tsunâmi de elevada magnitude na economia mundial.
“Vamos explodir o país inteiro”, ameaçava o presidente Donald Trump. Não demorou, e o chefe do Parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, rebateu: “Estamos preparados para revelar novas cartas no campo de batalha”. Em meio ao toma lá dá cá, uma tão aguardada rodada de negociações no Paquistão, país que atua como mediador, permaneceu sob suspense a um ponto tal que o vice-presidente JD Vance já havia até empacotado as malas, pronto para capitanear complexas costuras — na última vez em que se sentou à mesa com os aiatolás, elas não deram em nada. Vance aguardava um sinal verde da nação persa, que nunca veio, e não decolou. A Casa Branca então fez seus cálculos e decretou a extensão da pausa na guerra, deixando tudo ainda vago, no aguardo de uma resposta iraniana.
Foi um alívio, claro, mas apenas parcial, dado que as discordâncias seguem profundas e nenhum dos envolvidos demonstra intenção de arredar o pé de suas variadas exigências, tudo potencializado por um fervilhante caldo de desconfiança mútua. O principal impasse continua a ser o programa nuclear do Irã, o qual, só para lembrar, encabeçava o rol de justificativas para a incursão militar de Estados Unidos e Israel na república islâmica, em 28 de fevereiro. No bate-boca, os iranianos seguem brandindo sua arma mais poderosa, o fechamento do Estreito de Ormuz, a passagem por onde escoam 20% do petróleo consumido no planeta, o que gerou uma convulsão no mercado de energia.
Para desatar tão apertados nós, Trump tem feito como sempre faz: age como um homem de negócios agressivo, apostando no tudo ou nada e conferindo doses de imprevisibilidade a um cenário já suficientemente incerto. Já os aiatolás, mesmo com a capacidade de ataque reduzida, destruição por todos os lados e as finanças em frangalhos, esticam a corda, jogando com o tempo. “Trump busca resultados imediatos, enquanto os iranianos tentam ditar um ritmo mais lento, como lhes é característico”, avalia o cientista político Robert Pape, da Universidade de Chicago.
Novas movimentações no xadrez do conflito
A poeira mal havia assentado após a prorrogação da trégua, e novas movimentações no xadrez do conflito deram feições à fragilidade do trato. Na quarta-feira 22, a Guarda Revolucionária Islâmica atacou três cargueiros que tentavam cruzar Ormuz sem autorização e interceptou embarcações ligadas a Grécia, Emirados Árabes e Panamá. Isso tudo transcorre naquelas águas onde também os Estados Unidos persistem com seu próprio bloqueio, cujo objetivo é barrar o tráfego de navios do Irã, bem como daqueles que façam escala em seus portos — operação que capturou, até quinta-feira 23, dois petroleiros e fez recuar outros trinta, mirando a principal engrenagem da economia do opositor.
A queda de braço que tem como palco o mar é certamente um dos grandes obstáculos rumo à paz, horizonte que parece mais distante em meio às disputas pelo poder em Teerã, o que acaba por comprometer qualquer diálogo mais substancial em torno de um acordo. O racha interno ficou evidente quando se deixou vazar que o Paquistão havia passado mais tempo lidando com as divergências entre os oitenta representantes iranianos do que à mesa entre eles e os americanos, na malsucedida reunião de 11 de abril, na capital Islamabad. A fissura no regime dos aiatolás separa os mais pragmáticos, que fizeram sua voz prevalecer em uma breve abertura do estreito, dos radicais ligados à Guarda, de olho no tanto que podem faturar com a tutela do tráfego na nevrálgica passagem e sem nenhum pendor para qualquer concessão.
Negociações nucleares e o imbróglio
Conversas para pôr fim ao enrosco do enriquecimento de urânio ao menos parecem estar em andamento, ainda que as partes ventilem uma visão bem distinta da questão. Enquanto Washington exige paralisar o programa nuclear dos iranianos por duas décadas, eles oferecem apenas cinco anos, o que já foi descartado. Sobre o estoque estimado em 440 quilos de urânio, os Estados Unidos chegaram a falar em despachá-lo para um outro país, mas uma nova ideia foi apresentada pelo Irã: diluir o material enriquecido sob a supervisão da ONU. Teria, porém, que combinar com a Guarda Revolucionária, defensora-maior do plano de fazer do Irã uma potência nuclear.
“Está claro que esse imbróglio não se resolve mais no campo de batalha, mas, sim, em tratativas de alta complexidade, nas quais ninguém aparenta querer abrir mão de sua posição”, afirma o especialista em relações internacionais Daniel Byman, da Universidade de Georgetown. O afã de Trump por uma resolução rápida para tópicos tão complicados tem como freio de mão não apenas a tendência iraniana a um compasso mais vagaroso, mas também uma desconfiança alimentada por ele próprio. No primeiro mandato, o mercurial presidente decidiu abandonar o acordo nuclear acertado na gestão de Barack Obama, em 2015, após dois anos de suadas negociações, por considerá-lo favorável aos iranianos.
Naquela época, ficou bem claro o modus operandi dos negociadores do regime: cada cláusula desencadeava disputas e, quando o consenso se aproximava, as exigências se renovavam. Mas agora, afundada em uma crise de matizes políticos e econômicos, a nação persa sabe que não poderá estender para sempre o conflito, de cujo fim depende o alívio de sanções que estrangulam o país. Também Trump tem urgência, uma vez que, com as decisivas eleições de meio de mandato, em novembro, vê sua aprovação cair ao menor nível neste segundo mandato, patinando em 36%, um reflexo direto do que acontece no Oriente Médio.
“No fim, ambos terão que ceder”, resume Aniseh Tabrizi, do think tank Chatham House, em Londres. Resta saber quando.



