Justiça Federal suspende processo da Aneel que pode levar ao fim da concessão da Enel em SP
Justiça suspende processo da Aneel contra Enel em São Paulo

Decisão judicial suspende tramitação de processo que pode encerrar contrato da Enel em São Paulo

A Justiça Federal em Brasília concedeu uma liminar favorável à Enel Distribuição São Paulo, suspendendo temporariamente o processo administrativo da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) que poderia levar à recomendação de suspensão da concessão da empresa no estado de São Paulo. A decisão, proferida nesta quinta-feira (19), representa um alívio imediato para a concessionária, que enfrenta pressão regulatória após uma série de falhas no fornecimento de energia.

Violacão do devido processo legal fundamenta decisão

A juíza federal substituta Pollyanna Kelly Maciel Medeiros Martins Alves acolheu os argumentos da Enel de que houve cerceamento de defesa e violação ao devido processo legal no trâmite administrativo. O ponto central da decisão foi o voto antecipado do diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, que se manifestou pela aplicação da sanção máxima dois dias antes do prazo limite para manifestação da concessionária, em 26 de fevereiro.

A magistrada determinou que a Aneel retire o processo da pauta de julgamento prevista para a próxima terça-feira (24) e tornou provisoriamente sem efeito o voto proferido antecipadamente, até que se julgue o mérito da ação judicial proposta pela Enel. Além do cerceamento de defesa, a juíza apontou irregularidades na inclusão de "fatos novos" no processo, como o apagão de dezembro de 2025, sem que fosse seguido o rito legal adequado.

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Contexto do processo administrativo

O processo na Aneel foi aberto após falhas massivas na distribuição de energia e demora no restabelecimento do serviço pela Enel na Grande São Paulo em 2024. Considerada uma medida extrema, a caducidade (ou extinção do contrato) pode ocorrer quando confirmado que a concessionária descumpre obrigações contratuais e não tem condições de manter a prestação de serviços à população.

No voto questionado judicialmente, o diretor-geral Sandoval Feitosa argumentou que a distribuidora perdeu a legitimidade social para operar em São Paulo, citando a execução inadequada de planos de contingência e a mobilização de equipes abaixo do necessário para lidar com eventos climáticos extremos. Os descumprimentos reiterados levaram à aplicação de multas que superam R$ 320 milhões pela agência reguladora, muitas delas judicializadas.

Posicionamento da Aneel e reação da Enel

O diretor-geral da Aneel, Sandoval Feitosa, afirmou na quarta-feira (18), antes da decisão da Justiça, que a agência recorreria caso a liminar fosse concedida. Durante coletiva de imprensa em São Paulo, ele defendeu o respeito às instituições e criticou a decisão da Enel de acionar a Justiça para impedir o julgamento.

"Nos causa muita surpresa que a empresa esteja tentando interferir no processo administrativo da Aneel por vias transversas", declarou Feitosa. "O Poder Judiciário é um caminho para que qualquer cidadão ou empresa busque seus direitos, mas impedir que o regulador faça o seu trabalho, nós estaríamos já em uma etapa muito danosa para o processo regulador do nosso país."

Em tom crítico, Feitosa também pediu que a concessionária priorize investimentos no atendimento à população: "Gastar menos dinheiro para advogado e mais dinheiro na qualidade do serviço é o nosso pedido, para que o cidadão do estado de São Paulo tenha o seu melhor serviço possível."

Por sua vez, a Enel sustenta em seu pedido de liminar que houve cerceamento de defesa no processo, classificando a antecipação do voto do diretor-geral como uma "decisão-surpresa" que viola o devido processo legal. A empresa argumenta ainda que a Aneel está tentando incorporar "por arrastamento" fatos novos ocorridos em dezembro de 2025, quando um apagão deixou aproximadamente 4,4 milhões de clientes sem energia, a uma investigação que tratava originalmente de eventos de 2024.

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Próximos passos do processo

Com a decisão judicial, o processo administrativo na Aneel fica temporariamente suspenso até que se julgue o mérito da ação proposta pela Enel. No julgamento administrativo original, a diretoria colegiada poderia decidir pelo arquivamento do processo ou por remeter a recomendação de caducidade do contrato ao Ministério de Minas e Energia, que tem autonomia para decidir sobre o futuro da concessão.

Feitosa destacou que o colegiado ainda não se posicionou definitivamente: "A decisão não está tomada. Um outro diretor pode pedir vistas no processo. Eu posso, por exemplo, mudar o meu voto e concordar a partir dos argumentos trazidos pela empresa."

O g1 pediu um posicionamento atualizado à Aneel sobre a decisão judicial, mas não obteve resposta até a última atualização desta reportagem. O caso continua sob análise da Justiça Federal, enquanto a população de São Paulo aguarda definições sobre a qualidade do serviço de distribuição de energia no estado.