A joia estratégica no anel do mundo
No século 16, o historiador português João de Barros descreveu Ormuz como uma cidade situada "quase na garganta de estreito do mar da Pérsia", notando que a ilha era "toda muito estéril" mas que, através do comércio, "possui todas as coisas estimadas do mundo". Os moradores locais costumavam dizer que "o mundo é um anel e Ormuz uma pedra preciosa engastada nele", frase que capturava perfeitamente a importância geopolítica deste ponto estratégico.
Epicentro das Grandes Navegações
Atualmente no centro das tensões geopolíticas envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, o estreito de Ormuz já foi parte do extenso portfólio das conquistas portuguesas há cinco séculos. Enquanto o Brasil representava uma conquista territorial duradoura, em Ormuz o interesse português era fundamentalmente estratégico e comercial.
Os portugueses estabeleceram uma fortaleza na ilha de Gerum, usando a cidade como ponto de parada crucial para as embarcações a caminho das possessões portuguesas no Oceano Índico. "Embora se tratasse de um território árido, circundado pelo deserto e sem fontes naturais de água potável, Gerum viu nascer nos seus terrenos uma cidade cosmopolita", explica o historiador André Figueiredo Rodrigues, professor da Unesp.
A importância milenar do entreposto
Registros históricos apontam para a existência de Ormuz desde pelo menos o século 2, mas foi no século 14 que a cidade ganhou sua configuração definitiva. Após ataques mongóis que destruíram a prosperidade do assentamento original às margens do rio Minab, a população se mudou para a ilha de Gerum em 1302.
"A partir da nova posição, a cidade rapidamente firmou a sua predominância comercial e política no estreito", contextualiza o historiador João Luís Ferreira. Por Ormuz passavam não só a rota que ligava a Ásia à Europa, mas também importantes rotas intra-asiáticas conectando regiões distantes como Mesopotâmia, Pérsia, Bengala, Índia e Insulíndia.
O interesse comercial português
Quando Vasco da Gama desembarcou em Calicute em 1498, ele notou imediatamente a importância estratégica de Ormuz. A cidade figurava entre os principais elos das redes de comércio do Oceano Índico, exercendo domínio sobre extensos territórios costeiros do Golfo Pérsico e ilhas como o Bahrein, então importante exportador de pérolas.
Entre os diversos negócios praticados pelo reino de Ormuz, destacava-se o lucrativo comércio de cavalos exportados para a Índia em troca de ouro. "Eram animais sobretudo utilizados para fins militares", explica Rodrigues. "Como não se adaptavam plenamente ao clima indiano, raramente se reproduziam por lá, o que criava uma demanda permanente por novos cavalos."
Outros produtos comercializados incluíam prata, aljôfar, pérolas, salitre, enxofre, seda, pedra-ume, sal, almíscar, âmbar, frutas secas, cereais e tapeçarias. Em troca, importavam arroz e diversos tipos de especiarias e produtos aromáticos muito apreciados na Pérsia e na Arábia.
A conquista portuguesa
Em 1505, o rei Manuel 1º determinou tentativas diplomáticas para submeter Ormuz ao jugo português, movido tanto pelo desejo de controlar o comércio Europa-Oriente quanto pelo interesse católico de minar o poder econômico islâmico. A missão coube ao militar Afonso de Albuquerque, que em 1507 tomou várias praças sob controle ormuziano na costa.
"A expedição fazia parte da estratégia portuguesa de controlar pontos estratégicos das rotas comerciais do Oceano Índico", explica Rodrigues. Albuquerque estabeleceu um acordo com o rei local que previa a construção de uma fortaleza portuguesa dentro dos limites da cidade, mas interpretações divergentes do pacto causaram desentendimentos.
O conquistador retornou em 1515, aproveitando conflitos internos na sociedade ormuziana, e submeteu a cidade com facilidade. "A conquista se insere no contexto de efetivar a posse das terras em meio a uma disputa entre as autoridades locais", comenta Demétrius Cesário Pereira, professor de Relações Internacionais.
O domínio lusitano e seu legado
Com Ormuz sob controle português, a fortaleza de Nossa Senhora da Conceição foi finalmente concluída em 1515, estabelecendo a suserania de Ormuz ao reino de Portugal. "Ao comandar a região no século 16, Portugal passou a controlar o fluxo comercial entre o Oceano Índico e o Mar Mediterrâneo", frisa Rodrigues.
O período português trouxe prosperidade ao entreposto, que funcionava como elo entre as rotas do Oriente e os mercados do Ocidente. Porém, essa posição estratégica também tornou a região alvo de disputas, especialmente do Império Otomano.
O controle português duraria até 1622, quando forças persas com apoio inglês estabeleceram um cerco à fortaleza. Após meses de combates, as forças portuguesas se renderam e foram expulsas de Ormuz, encerrando definitivamente a presença lusitana no Golfo Pérsico.
Hoje, as ruínas do Forte de Nossa Senhora da Conceição, tombadas pelo órgão de proteção ao patrimônio histórico do Irã, permanecem como testemunho silencioso desta fascinante página da história global, onde uma pequena ilha árida se tornou, por um tempo, a pedra preciosa no anel do mundo.
