Brasília aos 66 anos: as mulheres esquecidas que construíram a capital federal
Aos 66 anos, Brasília comemora sua fundação com uma narrativa consagrada: a cidade planejada pelos gênios Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, fruto da visão de Juscelino Kubitschek e erguida pelos candangos. Embora verdadeira, essa história permanece incompleta, pois omite as inúmeras mulheres que igualmente deram forma à capital. Elas trabalharam lado a lado com esses homens célebres, projetaram edifícios icônicos, integraram a Universidade de Brasília e criaram peças que ainda hoje adornam os palácios da República.
As pioneiras nos canteiros de obra
Desde quando a nova capital era um aglomerado de canteiros de obras inóspitos e poeirentos, mulheres chegaram a Brasília por meio de concursos públicos, acompanhando maridos ou em busca de melhores condições de vida – como anunciava o presidente JK pelo rádio. As trajetórias e a história oral dessas mulheres tornaram-se objeto de estudo para a pesquisadora brasiliense Tânia Fontenele.
"Há mulheres que vieram trabalhar como enfermeiras. Ou nem eram enfermeiras mas, como não havia mão de obra, elas entravam nos hospitais, lavavam roupa, cuidavam de afazeres domésticos, buscavam formas de ser úteis e ter autonomia econômica", explica Tânia.
Elas estão nas quadras 107 e 205/206 da Asa Norte; na rodoviária do Plano Piloto e no interior dos palácios oficiais; nos depoimentos gravados no Arquivo Público do DF; nas pranchas de arquitetura assinadas com iniciais; e nos artigos acadêmicos que começam a reconstruir o que a história oficial deixou de lado.
"Elas foram muito, muito importantes para o desenvolvimento da cidade, para a história da cidade e no entanto pouco se falava das mulheres", enfatiza a pesquisadora.
Anna Maria Niemeyer: a autora escondida pelo sobrenome
No Arquivo Público do Distrito Federal, entre centenas de pranchas técnicas amareladas pelo tempo, há vários desenhos de móveis. No campo destinado à assinatura, onde deveria estar o nome completo da autora, há apenas duas letras: A.M., ou por vezes, 'Niemeyer'. Aquelas mesas, cadeiras e outras peças semelhantes que ocupam até hoje os salões do Palácio da Alvorada, do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal, foram desenhadas por Anna Maria Niemeyer.
Ela nasceu em 1930 no Rio de Janeiro, filha única de Oscar Niemeyer, e aos 17 anos já trabalhava no escritório do pai, aprendendo desenho técnico. Quando a Novacap começou a montar sua equipe para a construção de Brasília, Anna Maria entrou como técnica em decoração – a mesma função exercida pelo artista plástico Athos Bulcão.
Anna Maria recebia as plantas dos projetos oficiais e desenhava os móveis, especificava materiais e fiscalizava a produção nas fábricas. Quando a cidade foi inaugurada, os salões dos palácios estavam mobiliados com peças que ela havia projetado. Ela também foi responsável pela curadoria das obras de arte nesses espaços: tapeçarias de Djanira, esculturas de Alfredo Ceschiatti e telas de Di Cavalcanti.
Entretanto, em razão do formato da assinatura, apenas com as iniciais ou o sobrenome, por décadas muitas peças de Anna Maria Niemeyer foram atribuídas ao pai.
Maria Elisa Costa: a mulher que ajudou o pai a entregar o Plano Piloto
Em 1959, Maria Elisa Costa entrou na Novacap – não por ser filha de Lúcio Costa, mas como arquiteta formada, com diploma e projeto. Ela ajudou a tornar realidade o projeto do seu pai que desbancou outras 26 propostas: a cidade em forma de avião.
No Departamento de Urbanismo e Arquitetura, ela trabalhou no detalhamento de projetos urbanos. Entre as contribuições documentadas estão a fonte da Torre de TV e a Praça dos Pedestres na Plataforma da Rodoviária – espaços atravessados por milhares de brasilienses diariamente.
Ela também teve um projeto publicado na Revista Brasília nº 42, em junho de 1960 – uma das raras aparições femininas nas páginas da publicação oficial da Novacap.
A pesquisadora da Faculdade de Arquitetura da UnB Maribel Aliaga chama atenção para o esquecimento desses nomes que contribuíram de forma importante para a formação de Brasília.
"Há uma questão que é importantíssima: elas são filhas dos criadores da cidade e elas passam quase desapercebidas nesse primeiro momento da capital", afirma a professora.
Marianne Peretti e os vitrais da capital
Quem visita a Catedral de Brasília costuma ficar encantado com os vitrais modernistas, coloridos e harmônicos. Em prédios públicos, como o Congresso, Palácio do Jaburu, Memorial JK e Teatro Nacional, esculturas e painéis majestosos estão espalhados pelos salões. Essas obras foram desenhadas e produzidas pela franco-brasileira Marianne Peretti.
Para conhecer e conversar com Niemeyer, Marianne diz ter sido "cara de pau".
"Eu simplesmente bati na porta dele e disse que gostaria de trabalhar com ele. Depois de três meses, voltei ao Rio e o encontrei de novo. Ele deve ter gostado muito de mim, porque já me deu um monte de trabalho, todos de Brasília", contou ela.
As obras da capital foram "pensadas" no Rio de Janeiro, onde Marianne morava. A artista viajava para a nova capital quinzenalmente para desenvolver e acompanhar os trabalhos. Quando pisou em Brasília, a cidade já havia sido inaugurada, mas continuava em construção.
As primeiras mestrandas da UnB: uma porta de entrada para novas ideias
Enquanto Anna Maria e Maria Elisa trabalhavam na Novacap, uma nova geração de mulheres chegava à capital por outro caminho: a Universidade de Brasília. Inaugurada em 1962, a instituição criou um dos primeiros programas de pós-graduação em arquitetura do país.
Maribel Aliaga conta que a UnB não era como hoje. Os professores do curso na época não tinham mestrado ou doutorado – eram "só" arquitetos.
"Então essas moças se formaram em vários lugares do Brasil e vieram para cá fazer mestrado, dar aula na UnB, e saíram daqui levando um jeito UnB de ser pelo mundo".
Mayumi Watanabe: os bloquinhos que todo brasiliense conhece
Quem frequenta a Asa Norte conhece o bloco H da 107 – aquelas caixinhas brancas fotogênicas atrás do Bar do Beirute, que aparecem em incontáveis reportagens e guias sobre Brasília. Poucos sabem que o projeto é de Mayumi Watanabe, uma das primeiras mestrandas da UnB.
Márcia Nogueira Batista: o paisagismo do Zoológico
Nos anos 1960, Márcia Nogueira colaborou na Novacap na equipe do arquiteto Jayme Zettel. Na década seguinte, apesar de sua pesquisa ser voltada à arquitetura escolar, ela trabalhou no Departamento de Parques e Jardins de Brasília, onde participou do desenvolvimento do paisagismo do Zoológico e também do Eixo Rodoviário.
Doramélia da Motta: o rosto por trás da Babilônia Norte e da Galeria dos Estados
A quadra 205/206 da Asa Norte é conhecida pelos moradores como a mais "estranha" do Plano Piloto – diferentemente das demais, o comércio é virado para a residencial. As passarelas subterrâneas e os arcos geométricos bem marcados também são marcas registradas da Babilônia Norte, como foi apelidada a entrequadra.
Doramélia elaborou o projeto no fim da década de 1970, nos primeiros anos em que trabalhou na Terracap. A vontade de criar uma superquadra fora do modelo comum surgiu quando ela era estudante de arquitetura na Universidade de Brasília, entre 1971 e 1976.
Foi ela também quem liderou a construção de outros projetos icônicos de Brasília, como a Galeria dos Estados, que conecta os setores Comercial e Bancário Sul. Ela também ajudou a construir o Mercado do Núcleo Bandeirante, e diz ter participado de forma indireta em muitos projetos na capital.
"Eu vou passando pela cidade e vejo muita coisa minha", afirma a arquiteta.



