Da Dinamarca aos EUA: a história da compra das Ilhas Virgens e o paralelo com a Groenlândia
História da compra das Ilhas Virgens e paralelo com Groenlândia

A recente insistência do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em adquirir a Groenlândia da Dinamarca, incluindo a imposição de tarifas a oito países europeus que se opuseram à sua ambição, reacendeu um capítulo pouco lembrado da história. Mais de um século atrás, os EUA já haviam concluído uma transação territorial semelhante com os dinamarqueses, comprando o que hoje são as Ilhas Virgens Americanas. A justificativa da época? Razões estratégicas e de segurança nacional — um eco direto da retórica atual.

O Caribe Dinamarquês: açúcar, escravidão e declínio

Por séculos, um pequeno arquipélago no Caribe, a leste de Porto Rico, foi conhecido como Índias Ocidentais Dinamarquesas. As ilhas de Saint Thomas, Saint John e Saint Croix foram alvo de disputas entre potências europeias desde os séculos 16 e 17. A Dinamarca estabeleceu seu controle na região em 1684, desenvolvendo vastas plantações de cana-de-açúcar que dependiam do trabalho de pessoas escravizadas trazidas da África.

O comércio açucareiro sustentou a presença dinamarquesa por gerações, deixando marcas como os nomes das cidades Christiansted e Frederiksted, em homenagem a reis da Dinamarca. No entanto, no final do século 19, a queda nos preços do açúcar transformou as ilhas de um ativo em um passivo. Revoltas da população escravizada, que conquistou sua liberdade em 1848, somaram-se às dificuldades econômicas, fazendo a metrópole reconsiderar o valor daquelas possessões distantes.

A estratégia americana e a primeira tentativa frustrada

Enquanto a Dinamarca via seu poder minguar, os Estados Unidos emergiam da Guerra Civil (1861-1865) determinados a expandir sua influência no continente americano. Alinhados à Doutrina Monroe, que buscava reduzir a presença europeia nas Américas, estrategistas em Washington voltaram seus olhos para o Caribe.

O porto de Saint Thomas, com sua excelente proteção natural, era visto como uma base naval ideal. Em 1867, os governos dos dois países chegaram a um acordo: os EUA pagariam US$ 7,5 milhões em ouro pelas ilhas. Contudo, o tratado não foi ratificado pelo Congresso americano. A recente e polêmica compra do Alasca da Rússia, por cerca de US$ 7 milhões no ano anterior, havia gerado desconfiança sobre o valor de aquisições territoriais distantes.

O gatilho da Primeira Guerra Mundial e a ameaça alemã

A eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914 alterou drasticamente o cálculo estratégico. A Dinamarca mantinha-se neutra, mas em Washington crescia o temor de que a Alemanha pudesse invadir o país europeu e, consequentemente, assumir o controle das ilhas dinamarquesas no Caribe.

Na visão dos estrategistas americanos, se os alemães ocupassem Saint Thomas, poderiam usar seu porto como base para os temidos submarinos U-boats, ameaçando o tráfego marítimo dos EUA e até o território continental. A conclusão do Canal do Panamá em 1914 só aumentou a importância de se garantir rotas seguras na região.

Segundo a analista Astrid Andersen, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, a posição americana nas negociações que se seguiram lembra a tática atual. "Há ecos do que estamos ouvindo agora, porque o que os Estados Unidos vieram dizer foi: 'Ou vocês nos vendem ou vamos invadir'", compara ela.

A venda concluída e a promessa sobre a Groenlândia

Sob essa pressão, um novo acordo foi fechado em agosto de 1916. Os Estados Unidos comprariam as ilhas por US$ 25 milhões em ouro, valor equivalente a aproximadamente US$ 630 milhões (R$ 3,3 bilhões) nos dias de hoje. Como parte crucial do pacto, os americanos se comprometeram a não se opor aos interesses dinamarqueses na Groenlândia.

Os dinamarqueses aprovaram a venda em um referendo, e em 31 de março de 1917, a bandeira dos EUA foi hasteada oficialmente nas ilhas, enquanto a bandeira dinamarquesa era recolhida por uma guarda de honra e levada para sempre. A população local, estimada hoje em 83 mil habitantes e majoritariamente de ascendência africana, não foi consultada sobre a transação.

O paralelo com o cenário atual é inescapável. Mais de um século depois, um presidente americano novamente cita "segurança nacional" para justificar o interesse por um território dinamarquês, desta vez a vasta Groenlândia, no Ártico. A diferença crucial, no entanto, é que a Dinamarca do século XXI não vê sua maior ilha como um fardo econômico e não demonstra qualquer intenção de vendê-la. A história da aquisição das Ilhas Virgens Americanas mostra que, no passado, uma combinação de declínio dinamarquês e pressão estratégica americana levou a uma transferência pacífica de soberania. No presente, os mesmos ingredientes não parecem ser suficientes para repetir o feito.