Dona Beja: da fama de cortesã em Araxá à vida simples em Estrela do Sul
Durante grande parte do século XIX, o nome de Dona Beja era sinônimo de luxo, poder, fortuna e festas na então freguesia de São Domingos do Araxá, localizada no Alto Paranaíba mineiro. Reconhecida como uma das cortesãs mais célebres do Brasil, ela desafiou os padrões morais de uma sociedade predominantemente masculina e alcançou uma influência social rara para as mulheres da época imperial.
A transformação de uma vida
Mas a trajetória de Anna Jacintha de São José, nome de batismo de Dona Beja, tomou um rumo completamente diferente nas últimas décadas de sua existência. Após anos no centro da vida social de Araxá, Dona Beja abandonou os salões e as festas para viver de maneira mais tranquila em Estrela do Sul, no Triângulo Mineiro. Na cidade, ela dedicou seus últimos 30 anos à família e à fé católica, em uma fase marcadamente distinta daquela que a tornou famosa durante o Brasil Império.
Estrela do Sul em 1996
Uma reportagem exibida pela TV Integração em 1996 mostrou como era Estrela do Sul, o município escolhido por Dona Beja para viver seus anos finais. Atualmente com quase seis mil habitantes, naquela época a cidade preservava casarões antigos, uma forte tradição religiosa e memórias do período do garimpo de diamantes. Foi nesse cenário pacífico que ela decidiu se estabelecer, distante da agitação e da vida amorosa que caracterizaram sua passagem por Araxá.
De Araxá ao auge da fama
Nascida em 2 de janeiro de 1800, em Formiga (MG), Dona Beja ganhou notoriedade ainda jovem após ser sequestrada pelo ouvidor do rei, Joaquim Inácio Silveira da Mota, e levada para Paracatu em 1814. Ao retornar a Araxá alguns anos depois, passou a ocupar uma posição central na vida social da região. Mesmo sendo analfabeta, construiu riqueza e prestígio consideráveis.
No Museu Histórico de Araxá, estão expostas peças atribuídas a ela, incluindo uma medalha de ouro maciço que, segundo a tradição, a cortesã nunca retirava do pescoço por acreditar que lhe trazia sorte, e uma balança utilizada para pesar ouro e diamantes. Ela também acumulou diversas propriedades e terras, como a Chácara do Jatobá.
Conforme registros históricos compilados pela Fundação Cultural Calmon Barreto, Dona Beja organizava encontros e saraus frequentados por coronéis, políticos e autoridades de várias regiões. A partir dessas relações, construiu uma extensa rede de influência política e social, algo extremamente incomum para as mulheres de sua época.
Da vida de cortesã à devoção cristã
Apesar da fama em Araxá, a vida de Dona Beja se transformou radicalmente a partir da metade do século XIX, quando ela optou por se mudar para Bagagem, antigo nome de Estrela do Sul. A decisão foi influenciada pela presença de familiares — sua filha primogênita, Thereza Thomazia da Silva, residia na cidade — e pelo novo ciclo econômico da região, que vivia o auge da exploração de diamantes.
Um desses diamantes, com mais de 250 quilates, ficou conhecido como o quarto maior já encontrado no mundo até então. De acordo com o jornalista e escritor Pedro Divino Rosa, Dona Beja também participou ativamente da atividade garimpeira. “Em 1853, em razão da descoberta de diamantes grandes no município e familiares da sua filha estarem morando lá, convenceram Dona Beja a se mudar para Bagagem. Ela se associou a um garimpo chamado Califórnia, que desviou o leito do Rio Bagagem e dali saíram muitos diamantes”, explicou.
Uma existência mais simples e religiosa
Embora a mudança tenha sido motivada também pelas riquezas da região, nos anos finais Dona Beja já não possuía a mesma fortuna de outrora. Seu testamento revela uma vida mais modesta, dedicada integralmente à religião e à família. A existência que a antiga cortesã passou a levar em Estrela do Sul foi profundamente diferente daquela que marcou sua juventude em Araxá.
Longe do luxo e da intensa vida social que a tornaram célebre, ela foi morar em uma casa às margens do Rio Bagagem para viver de forma mais discreta. Nesse período, também se aproximou intensamente da religião católica. Pedro Rosa destacou que ela era devota de Nossa Senhora Mãe dos Homens, padroeira da cidade.
Um dos episódios que mais simbolizam essa devoção à fé cristã foi a construção de uma ponte sobre o Rio Bagagem. A obra foi financiada por Dona Beja para que ela pudesse acompanhar, diretamente da porta de sua casa, a procissão da padroeira. Com o passar do tempo, a figura outrora cercada de polêmicas passou a ser vista na comunidade como uma verdadeira benfeitora. “Ali, às margens do rio, todo mundo ia pedir a bênção para ela”, comentou Rosa.
A ponte acabou desabando na década de 1980, devido às constantes enchentes do rio. Dona Beja, que um dia escandalizou a sociedade mineira, terminou sua vida longe dos holofotes, em uma rotina tranquila no interior. Ela faleceu em 20 de dezembro de 1873, em decorrência de uma complicação renal. Foi sepultada no antigo cemitério da cidade, no local onde atualmente se encontra a praça da Igreja Matriz de Estrela do Sul.



