Japão não enviou navios de guerra ao Estreito de Ormuz: publicação viral é falsa
Japão não enviou navios ao Estreito de Ormuz: post é fake

Publicação viral sobre envio de navios japoneses ao Estreito de Ormuz é falsa

Circula nas redes sociais uma publicação que afirma categoricamente que o Japão enviou navios de guerra ao estratégico Estreito de Ormuz para auxiliar o ex-presidente norte-americano Donald Trump a restabelecer o fluxo de navios comerciais na região. Contudo, essa informação é completamente falsa e foi desmentida oficialmente pela Embaixada do Japão no Brasil.

Origem do conteúdo enganoso

O post viral, publicado em 22 de março na plataforma X (antigo Twitter), onde já acumulou mais de 126 mil visualizações, exibe um vídeo de embarcações militares japonesas, incluindo um porta-aviões, navegando em alto mar. A legenda acusa: "Por pressão do pedófilo, o Japão envia seus navios ao Estreito de Ormuz para ajudar Trump! O Japão se meteu numa fria e não vai sair nada bem dessa aventura. Seus navios não poderão retornar em segurança".

Embora o vídeo seja real e não produto de inteligência artificial, ele mostra na verdade uma exibição militar ocorrida em novembro de 2022 na Baía de Sagami, ao largo da costa da província de Kanagawa. Naquele evento, participaram 18 navios de 12 nações, incluindo Austrália, Canadá, Índia e Estados Unidos, além de seis aviões de combate franceses e americanos.

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Posicionamento oficial e contexto geopolítico

A Embaixada do Japão no Brasil foi categórica ao afirmar ao Fato ou Fake: "Não há navios da Força de Autodefesa do Japão atualmente enviado para o Estreito de Ormuz. Esta postagem no X é uma informação falsa".

O Estreito de Ormuz representa uma passagem marítima estreita e extremamente estratégica, controlada pelo Irã, que conecta o Golfo Pérsico ao mar aberto. Cerca de 20% de todo o petróleo comercializado globalmente passa por essa região. Com o início das ofensivas de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã em 28 de fevereiro, o regime islâmico determinou o fechamento da passagem marítima para navios cargueiros americanos e de países aliados a Washington, aumentando significativamente a pressão sobre a oferta global de petróleo.

Em resposta, Donald Trump pressionou aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), do Golfo e da Ásia a conduzir ações militares no Estreito para restabelecer o fluxo dos navios. Em 22 de março, a agência de notícias Reuters noticiou que o Japão avaliava a possibilidade de enviar embarcações especializadas para desminar o Estreito de Ormuz, mas isso ocorreria somente após um cessar-fogo. Em 24 de março, a Otan declarou que um grupo de 22 países, incluindo aliados no Oriente Médio e na Ásia, estaria se preparando para o restabelecimento total da rota, sem deixar explícito como isso ocorreria na prática.

Limitações constitucionais e capacidade militar japonesa

Leonardo Paz, pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV NPII), explicou os limites impostos pela Constituição japonesa de 1947 sobre as Forças Armadas do país: "A Constituição japonesa foi redigida sob a supervisão americana no Pós-Guerra, de maneira a tornar o Japão um regime pacifista, como se comprova pelo Artigo 9. Isso significa que as Forças Armadas japonesas são orientadas para a defesa do próprio território e priorizaram, ao longo de todas as últimas décadas, o uso de equipamentos mais defensivos, como sistemas anti-aéreos".

No entanto, o pesquisador analisa que recentemente o Japão aprovou um conjunto de leis de segurança que testam os limites da Constituição pacifista: "A partir de 2015, o Japão teve uma mudança dessa lógica [de defesa]. Agora, existe em curso uma concepção de autodefesa coletiva, e não só autodefesa pura. A autodefesa pura é você pensar só no seu próprio território. Já a autodefesa coletiva permite ao Japão projetar poder de forma defensiva em apoio a aliados, quando um ataque contra eles ameaça a própria segurança do país".

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Com relação à intervenção do Japão no Estreito de Ormuz, o pesquisador descartou completamente o envio de embarcações de guerra no atual momento do conflito: "Para garantir o domínio do Estreito de Ormuz, você teria que ocupar basicamente a parte sul do Irã, obviamente limpar todo tipo de equipamento de defesa e criar uma zona também de exclusão aérea para interceptar os drones que viessem de mais longe. Então, assim, é dificílimo [fazer isso]. O Japão não é o país que tem condição de ajudar nessa questão".

Paz complementou: "O que o Japão já se colocou à disposição de fazer, eventualmente, num contexto em que o conflito já esteja arrefecido, é enviar uma embarcação chamada Mine Sweeper para desminar o Estreito. Mas fora isso, a capacidade militar do Japão é muito pequena para esse tipo de operação ofensiva".

Como identificar informações falsas

Para confirmar a origem do conteúdo enganoso, a equipe do Fato ou Fake realizou uma busca reversa por imagem no Google Lens, selecionando um frame do vídeo viral. Essa técnica permite verificar se um conteúdo havia sido reproduzido anteriormente na internet e em qual contexto. A pesquisa apontou diretamente para o vídeo original da exibição militar de novembro de 2022, publicado pela agência de notícias japonesa Jiji Press.

É fundamental que os usuários das redes sociais verifiquem as informações antes de compartilhá-las, especialmente em contextos de tensão geopolítica como o atual. A disseminação de notícias falsas pode contribuir para a desinformação e até mesmo agravar conflitos internacionais.