A Operação Overclean, deflagrada em dezembro de 2024, atingiu nesta terça-feira (13) a sua nona fase, com um rastro de investigações que já alcançou prefeitos, deputados federais e servidores públicos. O foco central das apurações é o desvio de recursos oriundos de emendas parlamentares e convênios, com suspeitas de superfaturamento em obras, licitações fraudulentas e lavagem de dinheiro, em um esquema que movimentou aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
Alvos de alto escalão e cenas inusitadas
As ações policiais ao longo das nove fases resultaram em cenas marcantes, como dinheiro sendo jogado pela janela, escondido em gavetas e até dentro de um par de botas. O esquema teria impactado principalmente o Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contra as Secas), órgão vinculado ao Ministério da Integração Nacional, com forte atuação no estado da Bahia.
Devido à menção a parlamentares, o inquérito passou a tramitar no Supremo Tribunal Federal (STF), sob a relatoria do ministro Kassio Nunes Marques. Entre os investigados estão parentes do deputado Elmar Nascimento (União Brasil-BA) e os também deputados Félix Mendonça (PDT-BA), alvo de buscas na nona fase, e Dal Barreto (União Brasil-BA).
Cronologia de um esquema milionário
A operação se desdobrou em múltiplas etapas, cada uma revelando novos envolvidos e métodos de desvio. Na primeira fase, em dezembro de 2024, foram cumpridos 43 mandados de busca e efetuadas 17 prisões preventivas em cinco estados. O ex-comandante do Dnocs na Bahia, Lucas Lobão, e o vereador Francisquinho Nascimento, primo do deputado Elmar Nascimento, foram presos. Francisquinho ficou conhecido por ter arremessado dinheiro pela janela durante a ação policial.
A segunda fase prendeu o vice-prefeito de Lauro de Freitas (BA) e um policial federal acusado de vazar informações. Já a terceira fase determinou o afastamento do secretário de Educação de Belo Horizonte, Bruno Barral, ex-secretário em Salvador, onde foram encontrados com ele valores em dólares, euros e reais.
A quarta fase mirou emendas do deputado Félix Mendonça e resultou no afastamento dos prefeitos de Ibipitanga e Boquira, na Bahia. Com o ex-prefeito de Paratinga, Marcel Carneiro de Carvalho (PT), foram apreendidos mais de R$ 1 milhão, encontrados em forma de "bolos de notas" dentro de gavetas.
Na quinta fase, o esquema envolveu contratos da Codevasf com o município de Campo Formoso, cidade do deputado Elmar Nascimento. Durante as buscas, a Polícia Federal encontrou cerca de R$ 10 mil em notas dentro de um par de botas em endereço ligado a um primo do parlamentar.
As fases seguintes continuaram a atingir figuras políticas. A sexta fase teve como alvo o deputado Dal Barreto, com apreensão de seu celular. A sétima mirou aliados políticos dele, incluindo o prefeito de Riacho de Santana, afastado por determinação do STF. A oitava fase atingiu um suposto secretário nacional do Podemos.
Nona fase bloqueia R$ 24 milhões e mira deputado novamente
A mais recente etapa da Overclean, a nona, voltou a ter como alvo o deputado federal Félix Mendonça (PDT-BA), com uma busca em seu apartamento funcional em Brasília. Além disso, o STF determinou o bloqueio de R$ 24 milhões em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas investigadas. A medida tem o objetivo de interromper a movimentação de valores de origem ilícita e preservar ativos para uma eventual reparação aos cofres públicos.
A operação expõe um modus operandi complexo, onde o sobrepreço em obras públicas se transformava em propina, paga por meio de empresas de fachada controladas por laranjas ou por meio de grande fluxo de dinheiro em espécie, dificultando o rastreamento.