Vendas globais de armas registram crescimento de 10% com Europa na liderança das importações
Os fluxos internacionais de armas apresentaram um aumento significativo de quase 10% nos últimos cinco anos, com destaque para o continente europeu, que mais do que triplicou suas importações. Os dados mais recentes do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri) revelam que a Europa se consolidou como o maior destino de armas no mundo, posição que não ocupava desde a década de 1960.
Europa responde por 33% das importações globais
No período analisado entre 2021 e 2025, os países europeus foram responsáveis por impressionantes 33% das importações globais de armas, um salto considerável em comparação com os 12% registrados no quinquênio anterior. Mathew George, diretor do Programa de Transferências de Armas do Sipri, explica que "as entregas para a Ucrânia desde 2022 são o fator mais evidente, mas a maioria dos outros países europeus também começou a importar muito mais armas para reforçar suas capacidades militares".
O especialista acrescenta que essa movimentação está diretamente relacionada à ameaça percebida em crescimento por parte da Rússia, que tem levado nações europeias a fortalecerem seus aparatos de defesa. As outras regiões que mais receberam armas no período foram:
- Ásia e Oceania: 31%
- Oriente Médio: 26%
- Américas: 5,6%
- África: 4,3%
Brasil se destaca nas Américas
Nas Américas, o crescimento nas importações foi de 12%, com o Brasil desempenhando papel relevante no cenário regional. O país recebeu 21% do total importado entre 2021 e 2025 na região, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (52%), e representou 60% das importações sul-americanas.
No ranking global, o Brasil ocupa a 24ª posição como fornecedor de armas (0,3% do total mundial), tendo Portugal como principal comprador, e a 25ª posição como importador (1,2% do total global), sendo abastecido principalmente por França e Suécia.
Domínio americano e mudanças no cenário exportador
Quase metade das armas destinadas à Europa (48%) teve origem nos Estados Unidos, seguidos pela Alemanha (7,1%). Os americanos consolidaram sua posição como principais exportadores mundiais, respondendo por 42% de todas as transferências internacionais de armas no período analisado - um crescimento notável em comparação aos 36% registrados nos cinco anos anteriores.
Pieter Wezeman, pesquisador sênior do Sipri, observa que "os EUA consolidam ainda mais seu domínio como fornecedor de armas, mesmo em um mundo cada vez mais multipolar". Sob a administração de Donald Trump, a Casa Branca passou a enxergar as exportações de armas como um instrumento de política externa e um meio de fortalecer sua indústria de defesa.
Enquanto isso, a Alemanha superou a China e tornou-se o quarto maior exportador de armas entre 2021 e 2025, com 5,7% das exportações globais. Em segundo e terceiro lugar, aparecem respectivamente França (9,8%) e Rússia (6,8%).
Queda russa e crescimento polonês
No caso russo, houve uma queda abrupta de 64% durante o período analisado, em que os últimos quatro anos foram marcados pela guerra na Ucrânia. O país utiliza mais de seu próprio equipamento contra o vizinho, enquanto Estados Unidos e Europa pressionam países terceiros a não comprarem armas russas.
No contexto de alta tensão regional, o maior importador de armas entre os Estados-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Europa é hoje a Polônia, que faz fronteira com a Ucrânia e Belarus. Enquanto o país busca fortalecer a defesa nacional, o volume das importações aumentou em impressionantes 852%.
Exportações europeias e cenário no Oriente Médio
Apesar dos discursos sobre a necessidade de a Europa se tornar mais autossuficiente, as transferências entre países do continente representaram apenas um quinto dos seus fluxos. "Os fornecedores europeus ainda exportam majoritariamente para fora da Europa, e não dentro do continente", destacou George.
No caso da Alemanha, quase um quarto das exportações (24%) foi para a Ucrânia, e apenas 17% foram para outros países europeus. Mais da metade deixou o continente, sobretudo para Egito (14%) e Israel (10%). No ano passado, a Alemanha impôs um embargo parcial à venda de armas para Israel, suspendendo o fornecimento de equipamentos militares que pudessem ser usados em Gaza.
As importações de armas para o Oriente Médio caíram 13%, mas três dos maiores importadores do mundo continuam vindo da região, que recebeu mais da metade de suas armas (54%) dos Estados Unidos. A Arábia Saudita respondeu por 6,8% das importações globais, enquanto Catar e Kuwait representaram, respectivamente, 6,4% e 4,8%.
Mudanças na Ásia e produção doméstica
China e Índia estão buscando desenvolver e produzir internamente tecnologia de defesa, em mais uma explicação para a queda das exportações russas. No caso indiano, o país também tem buscado diversificar fornecedores, enquanto o Paquistão tem aumentado significativamente suas importações.
A mudança da China em direção à produção doméstica e ao afastamento das importações russas fez com que suas importações totais caíssem 72%. O país saiu da lista dos dez maiores importadores pela primeira vez desde o início dos anos 1990, segundo o Sipri.
Wezeman observa que "temores sobre as intenções da China influenciam os esforços de armamento em outras partes da Ásia e Oceania, que muitas vezes ainda dependem de armas importadas". O Japão aumentou suas importações de armas em 76%, enquanto Taiwan aumentou as suas em 54%.
O relatório do Sipri analisa tendências em blocos de cinco anos porque algumas entregas de grandes contratos podem distorcer os números anuais, oferecendo uma visão mais precisa das dinâmicas globais no comércio de armamentos.



