Proteções nucleares em queda: especialistas alertam para cenário sombrio após ataque ao Irã
"O Irã nunca terá uma arma nuclear". A frase foi repetida três vezes no discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, neste sábado (28), mas especialistas ouvidos pelo Fantástico pintam um cenário muito mais complexo e preocupante sobre o futuro das armas de destruição em massa no mundo.
Programa nuclear iraniano: destruído mas não eliminado
O programa nuclear do Irã é antigo, iniciado em 1957 com apoio norte-americano durante a ditadura do xá Mohammad Reza Pahlavi, muito antes da revolução islâmica de 1979. Oficialmente destinado à produção de energia nuclear, essa continua sendo a versão mantida pelo governo islâmico atual, mas Estados Unidos e Israel não acreditam nessa narrativa.
Em junho do ano passado, os dois países alegaram ter destruído o programa na operação "Martelo da Meia-noite", que atacou bases com plantas de enriquecimento de urânio. No entanto, especialistas explicam que a destruição física não significa o fim do conhecimento técnico.
"Provavelmente, as plantas de enriquecimento do Irã foram realmente destruídas. Mas acontece que destruir as plantas não significa destruir o programa, porque os técnicos, os cientistas envolvidos no desenvolvimento do programa continuam vivos e com 'know-how'", explica Marco Antônio Saraiva Marzo, físico nuclear e engenheiro nuclear.
O especialista acrescenta que "o Irã possuía 408 quilos de urânio. Esse urânio poderia ter sido escondido, transportado em pequenos contêineres", enquanto Matias Spektor, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas (SP), destaca que "esses ataques retardaram o programa nuclear iraniano, sem dúvida alguma, mas não o eliminaram".
Negociações fracassadas e interpretações divergentes
Em paralelo ao conflito militar, Irã e Estados Unidos mantinham negociações sobre o programa nuclear desde abril do ano passado, mas após várias rodadas de conversas, não houve acordo. "Os Estados Unidos pediram o fim completo do programa nuclear, que o regime não topa fazer", explica o professor Spektor.
Segundo ele, "o Irã interpreta que este programa simboliza a capacidade que o país tem de ter uma vida autônoma, independentemente da oposição que recebe dos Estados Unidos há quase 50 anos, e a oposição sistemática de Israel, que essa era uma maneira do Irã mostrar ao mundo a sua grandeza".
Sobre o futuro do programa, Spektor é claro: "Houve vários ataques a instalações nucleares, novamente. Então, provavelmente, o programa nuclear do Irã está sendo realmente destruído. Mas se a situação continuar como está, daqui a alguns anos eles podem voltar a desenvolver instalações nucleares, especialmente instalações de enriquecimento".
Isolamento internacional e aliados regionais
O mundo tem hoje nove potências nucleares, incluindo Estados Unidos e Israel, que atacaram o Irã. No entanto, o país islâmico enfrenta isolamento significativo na cena internacional.
"O principal aliado internacional do Irã é a Rússia. No entanto, a Rússia não tem condições materiais hoje de sair em apoio ativo para o Irã, porque a Rússia está lutando a própria guerra dela na Ucrânia", pontua Spektor.
Ele esclarece ainda que:
- A China já deu sinais de que não vai se envolver no conflito
- Não há países europeus aliados do regime dos aiatolás
- Índia, Paquistão e Coreia do Norte também não oferecem apoio significativo
Porém, o Irã conta com outro tipo de apoio, como explica o professor Tanguy Baghdadi: "O Irã tem vários grupos no Oriente Médio que são aliados dele. Hezbollah, Hamas, os Huthis, no Iêmen, que podem efetivamente fazer ataques em seu nome. São grupos que estão enfraquecidos, mas que eventualmente podem recorrer, por exemplo, a táticas terroristas na região e fora da região".
O cenário sombrio do risco nuclear global
"A situação mundial na questão do risco nuclear é muito sombria", ressalta o físico Marco Antônio Marzo, apontando que muitos países estão reconsiderando suas posições sobre armas nucleares.
Spektor detalha: "Muitos países hoje estão pensando ativamente se não deveriam construir artefatos nucleares. Tem conversas a esse respeito na Coreia do Sul, na Alemanha, na Polônia, no próprio Japão". Cada país tem motivos diferentes: alguns por proteção, outros para garantir influência numa disputa global que muda rapidamente.
Para entender a gravidade da situação, o físico enumera pontos críticos:
- Todos os países nucleares estão modernizando seus arsenais
- A China está expandindo seu arsenal nuclear
- Na última semana, expirou o último tratado de redução de armas nucleares estratégicas entre Rússia e Estados Unidos
"Isso significa que hoje não existe nenhum tratado em vigor de redução de armas nucleares no mundo. O desarmamento nuclear vem praticamente paralisado há décadas", alerta Marzo.
Ele enfatiza: "Parece que o risco nuclear é uma coisa lá dos países do norte, mas se houver uma guerra nuclear total, todos os continentes, o hemisfério norte, o hemisfério sul, todos são atingidos. Esse é um problema também nosso".
O pesadelo de uma guerra nuclear
Sobre a duração de um conflito nuclear, os especialistas são categóricos. "É muito difícil de responder, mas uma guerra total nuclear envolvendo esses países, especialmente Estados Unidos, Rússia e China, poderia levar à destruição do mundo", diz Marco Antônio.
Spektor complementa: "Esse é um exercício mental que diz assim, que diante de um ataque nuclear haveria uma retaliação imediata do atacado com armas nucleares, levando a um contra-ataque e a uma escalada. Haveria ou aniquilação mútua ou você emitiria tanta radiação no planeta que acabaria a vida na Terra".
E finaliza com um alerta que ressoa como um lembrete urgente: "O lance com a guerra nuclear é que a gente nunca viveu uma, e é melhor assegurar que a gente nunca viverá uma".
