Estratégia de Israel contra líderes iranianos: o dilema do martírio xiita e a insatisfação popular
A intensificação das eliminações de líderes iranianos por Israel, incluindo figuras como Ali Larijani e Ali Khamenei, levanta profundos dilemas estratégicos e éticos. A doutrina xiita do martírio, que venera figuras históricas mortas em combate, e a visão apressacionista do fim do mundo moldam a resistência iraniana, criando um cenário complexo para as ações israelenses.
O culto ao martírio e a psicologia xiita
Os nomes dos líderes eliminados não são coincidência: louvam Ali, primo e genro de Maomé, figura fundamental do xiismo. Ele e seus filhos, Hussein e Hassan, foram mortos em disputas pelo poder no século VII, tornando-se mártires venerados. A história subsequente das seitas xiitas foi marcada por perseguição e exílio, solidificando um entendimento entranhado da virtude de sofrer por suas crenças.
Como destacou o acadêmico paquistanês Michael Nazir-Ali, a retórica de Teerã é influenciada pelo complexo de martírio, profundamente enraizado na psicologia xiita. A corrente dominante no Irã também cultiva uma visão escatológica, acreditando no retorno do Mahdi, um líder messiânico oculto desde 874. Alguns xiitas, chamados apressacionistas, acreditam que conflitos aceleram esse retorno, antecipando a batalha do fim do mundo.
Os riscos estratégicos e a resposta israelense
Israel, apesar de conhecer os meandros do radicalismo xiita através de décadas de interação com o Hezbollah no Líbano, decidiu correr o risco de eliminar líderes iranianos. Isso incluiu figuras como Ismail Khatib, ministro responsável por operações de inteligência. O objetivo declarado é criar condições para que o povo iraniano mude o destino do país, desafiando a capacidade de repressão do regime.
No entanto, há o perigo de que a eliminação de grandes nomes promova substitutos ainda mais radicais. Os resultados ainda não são definitivos, apesar da extensa destruição infligida às estruturas de ataque e defesa do Irã e à dizimação de suas lideranças, que já soma vários milhares.
A população insatisfeita e a cooperação anônima
Revela-se uma população iraniana insatisfeita, disposta a cooperar para a queda do regime. Mesmo intimidada e sem condições de sair às ruas, essa população procura fazer sua parte. Por exemplo, foi uma pista dada por um iraniano anônimo que permitiu a Israel localizar Gholamreza Suleimani, chefe da milícia Bassij, responsável por massacres de manifestantes.
Segundo reportagens, líderes iranianos têm sido eliminados sistematicamente, inclusive em centros esportivos e estádios onde se esconderam após ataques iniciais. Em uma semana, muitos estavam mortos, demonstrando a eficácia das operações israelenses apoiadas por informações internas.
Perspectivas para o futuro do Irã
Especialistas como Nazir-Ali apontam que, se o regime cair, revolucionários islamistas já têm pronta uma resistência infinita. No entanto, existe um grande número de pessoas no Irã – incluindo estudantes, mulheres, minorias, acadêmicos e elementos da classe comercial – que desejam cooperar na emergência de um novo país.
Essa reconstrução terá que ser ancorada na antiga civilização iraniana, inspirando-se nela para a tarefa urgente de reconstrução quando os aiatolás caírem. A chave pode estar na combinação de pressão externa e insatisfação interna, embora o desfecho ainda seja incerto em meio a doutrinas religiosas profundamente arraigadas.



