Rússia afirma que guerra na Ucrânia se tornou confronto amplo com o Ocidente
Guerra na Ucrânia é confronto amplo com Ocidente, diz Rússia

Rússia acusa Ocidente de transformar guerra na Ucrânia em confronto amplo

O porta-voz do governo russo, Dmitry Peskov, afirmou nesta terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, que a decisão de países do Ocidente de intervir no conflito na Ucrânia transformou o cenário em um confronto muito mais amplo. A declaração ocorre na marca dos quatro anos da invasão russa ao país vizinho, ordenada pelo presidente Vladimir Putin.

"Após a intervenção direta neste conflito por parte dos países da Europa Ocidental e dos Estados Unidos, a operação militar especial transformou-se, de fato, em um confronto muito maior entre a Rússia e os países ocidentais, que tinham e continuam a ter o objetivo de destruir o nosso país", disse Peskov em coletiva de imprensa.

Negociações diplomáticas em impasse

Questionado sobre a possibilidade de resolução do conflito por meio de negociações, o porta-voz russo afirmou: "Continuamos nossos esforços para alcançar a paz, nossa posição é muito clara e consistente. Agora, tudo depende das ações do regime de Kiev". Peskov ainda destacou que não pode dizer quando e onde ocorrerá a próxima rodada de negociações com a Ucrânia, pois ainda não foi finalizada.

Representantes da Ucrânia, Rússia e Estados Unidos se reuniram na semana passada em Genebra para novas negociações, em tentativa de envolver mais diretamente atores europeus na retomada de diálogos. As partes já haviam se encontrado anteriormente em Abu Dhabi, com mediação indireta de Washington.

No entanto, as perspectivas de avanços concretos seguem limitadas diante das exigências territoriais maximalistas apresentadas por Moscou. Como condição prévia para qualquer acordo, a Rússia exige que Kiev retire suas tropas de toda a região de Donetsk, incluindo uma linha de cidades fortificadas consideradas uma das defesas mais fortes dos ucranianos.

Posições irreconciliáveis

A Ucrânia, por sua vez, defende que o conflito deve ser congelado ao longo das linhas de frente atuais, rejeita qualquer retirada unilateral de suas forças e busca garantias de segurança ocidentais sólidas para dissuadir a Rússia de retomar a ofensiva após qualquer cessar-fogo. Kiev também exige o controle de Zaporizhzhia, a maior usina nuclear da Europa, que foi tomada pelos russos no início do conflito.

Atualmente, a Rússia ocupa cerca de 20% do território nacional da Ucrânia, incluindo a Crimeia e partes da região leste de Donbas. Analistas indicam que as forças russas ganharam aproximadamente 1,5% do território ucraniano desde o início de 2024.

Zelensky apela a Trump e reafirma resistência

Em pronunciamento marcando os quatro anos da invasão, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky apelou para que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, visite Kiev e veja "com os próprios olhos" os efeitos da guerra. Nos últimos meses, Trump tem adotado um tom ambíguo em relação ao conflito e, segundo relatos da imprensa americana e europeia, sinalizou disposição para pressionar Kiev a aceitar concessões territoriais no leste do país.

Em vídeo de 18 minutos divulgado junto a imagens inéditas do bunker presidencial na rua Bankova — onde ele e seus assessores se refugiaram nas primeiras horas do ataque russo — Zelensky afirmou que Moscou fracassou em seus objetivos centrais. "Ele não venceu esta guerra. Preservamos a Ucrânia e faremos tudo para alcançar a paz. E garantir justiça", disse, referindo-se a Putin.

O presidente ucraniano também declarou que o país não trairá sua população em eventuais negociações com o Kremlin. "Queremos uma paz forte, digna e duradoura", afirmou. "Não podemos anular todos esses anos de luta, coragem e dignidade."

Desgastes humanitários e econômicos

Zelensky destacou que, incapaz de derrotar a Ucrânia no campo de batalha, Putin intensificou ataques contra infraestrutura civil. "Ele está lutando contra prédios residenciais e usinas de energia", disse. Nas últimas semanas, bombardeios com mísseis balísticos e drones atingiram o sistema elétrico ucraniano, deixando milhões de pessoas sem luz durante um dos invernos mais rigorosos dos últimos anos.

Dados das Nações Unidas indicam que:

  • Milhares de civis morreram desde o início da invasão
  • Dezenas de milhares de militares de ambos os lados foram mortos
  • O conflito provocou a maior crise de refugiados na Europa desde a Segunda Guerra Mundial

A economia da Ucrânia também está atravessando seu momento mais difícil desde o primeiro ano da invasão russa devido aos ataques contra o sistema de energia. O índice mensal de recuperação da atividade empresarial do Instituto de Pesquisa Econômica em Kiev ficou negativo em fevereiro pela primeira vez desde 2023.

Custos astronômicos da reconstrução

A situação no país se agravou após a Hungria manter nesta segunda-feira seu veto a um empréstimo militar de 90 bilhões de euros da União Europeia destinado a apoiar Kiev. A reconstrução da economia e da infraestrutura da Ucrânia, caso a guerra acabasse agora, custaria US$ 588 bilhões (R$ 3 trilhões) em dez anos, segundo estimativa divulgada pelo Banco Mundial em estudo feito em conjunto com as Nações Unidas, a Comissão Europeia e o governo ucraniano.

Esta conta representa um aumento de 12% sobre a estimativa do ano passado, agravada pelo salto de 21% nos estragos no sistema energético do país. "O valor da reconstrução é quase três vezes o PIB nominal do país para 2025", disse a premiê ucraniana, Iulia Sviridenko, em nota, acrescentando que o Produto Interno Bruto do país só poderá voltar a crescer de forma sustentável se houver um cessar-fogo.

Segundo o estudo do Banco Mundial, o setor mais afetado pela guerra é o de habitação, com 14% de destruição ou danos registrados, somando US$ 61 bilhões (R$ 316 bilhões). O conflito continua a redesenhar a geopolítica europeia enquanto ceifa vidas e destrói infraestruturas essenciais para a população ucraniana.