Retorno cauteloso a lares devastados pela guerra
Nesta sexta-feira (17), famílias libanesas desabrigadas pelo conflito entre Israel e o grupo extremista Hezbollah começaram a retornar para suas casas, um dia após o anúncio de um cessar-fogo nos combates que assolam a região. Nos subúrbios ao sul da capital Beirute, alvo de múltiplos ataques aéreos israelenses, o clima entre os escombros de edifícios destruídos misturava-se entre celebração e apreensão.
Celebração e medo entre os escombros
"Se Deus quiser, tudo terminará bem. Este cessar-fogo é uma vitória para nós", declarou Iyad Jamal Eddine, morador local, à agência Reuters. Ele destacou a resiliência dos deslocados e o apoio popular à resistência representada pelo Hezbollah. No entanto, muitos libaneses que se refugiaram nas ruas de Beirute ainda hesitam em voltar para suas cidades, temendo que a frágil trégua não seja respeitada ou prorrogada.
Sayyed Akram Atoun, da cidade de Markaba, expressou sua decisão de aguardar: "Não voltaremos até que a guerra termine e eles se retirem de todo o território libanês". Sua cautela reflete o sentimento generalizado entre aqueles que perderam tudo para a violência.
Tráfego intenso e passagens improvisadas
Em Sidon, importante cidade costeira, a rodovia que leva ao sul do Líbano registrou fluxo intenso de veículos, enquanto em Qasmiyeh, já na região sul, formou-se uma longa fila de carros para atravessar uma passagem improvisada sobre o rio Litani. Esta estrutura foi erguida às pressas após o cessar-fogo, já que Israel destruiu várias pontes durante o conflito, incluindo a da própria cidade.
Na cidade de Nabatieh, amplamente devastada, alguns moradores que retornavam afirmavam, em tom desafiador, que permaneceriam no local. Outros, porém, reconheciam que não havia mais nada para onde voltar. "Há destruição e é inabitável. Estamos pegando nossas coisas e indo embora novamente", lamentou Fadel Badreddine, que estava com a esposa e o filho pequeno, pedindo a Deus que trouxesse um alívio permanente, não temporário.
Contexto do conflito e incertezas futuras
Israel vem atacando o Líbano desde março, no contexto da guerra no Oriente Médio, alegando alvejar o Hezbollah, grupo financiado pelo Irã que retomou ataques ao norte de Israel em retaliação. O Exército libanês não se envolveu diretamente no conflito, mas as tensões históricas entre os países vizinhos remontam à década de 1970.
Em comunicado após o anúncio da trégua, o Hezbollah afirmou que qualquer cessar-fogo deve impedir a presença de soldados israelenses no território libanês. No entanto, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que o acordo não prevê a retirada de suas tropas, que atualmente ocupam partes do sul do Líbano, o que pode comprometer a estabilidade da trégua.
Pouco antes do anúncio, o deputado libanês Hassan Fadlallah, integrante do braço político do Hezbollah, disse à Reuters que o cumprimento do cessar-fogo pelo grupo dependeria de Israel interromper seus ataques ao Líbano. Esta condição, somada às declarações anteriores do Hezbollah de que não cumpriria acordos entre governos, deixa o futuro da paz incerto e as famílias libanesas em um limbo entre a esperança e o medo.



